A reunião realizada na manhã desta segunda-feira, na sede da CBF, no Rio de Janeiro, recolocou na mesa um tema que há muito tempo deixou de ser apenas importante: o fair play financeiro para o futebol brasileiro. Trata-se de uma medida urgente, quase de sobrevivência, diante de um cenário em que vários clubes de grande porte estão atolados em dívidas e à beira da insolvência.
O assunto não surge por acaso. Foi uma das principais bandeiras de campanha do recém-empossado presidente da CBF, Samir Xaud, e também um dos motes que atraíram para o debate figuras influentes como a presidente do Palmeiras, Leila Pereira. Empresária bem-sucedida, dona de um império erguido com gestão profissional, Leila é defensora de primeira hora de um modelo mais rígido de responsabilidade financeira — e vê nele uma das poucas saídas para manter o futebol brasileiro em alto nível.

O problema é que, em quase todas as suas manifestações sobre o tema, a presidente palmeirense não resiste à tentação de direcionar o discurso contra o maior rival, o Corinthians. Foi assim mais uma vez. Na narrativa dela, não é justo que um clube que paga tudo em dia seja eliminado por outro que não honra seus compromissos. Mas esse raciocínio não se sustenta.
Manda o resultado de campo
Se a CBF permite que o Corinthians — ou qualquer outro clube endividado — dispute as competições, é preciso aceitar que o resultado em campo será definido pela bola, e não pelo balanço. Uma gestão eficiente não garante vitórias, assim como uma administração desastrosa não impede, necessariamente, um triunfo esportivo. O que soa mal, portanto, é ver a defesa do fair play financeiro ser confundida com a conveniência dos resultados. Quando o Palmeiras vence, tudo bem. Quando perde para um rival endividado, vira “injustiça”.
Também vale lembrar: o próprio Palmeiras, hoje modelo de administração, já esteve mergulhado na vala comum das dívidas e da má gestão em passado recente. Essa memória deveria servir de vacina contra discursos seletivos.

Fora essa rivalidade mal disfarçada, é fundamental que Leila Pereira siga sendo uma voz ativa na defesa de um futebol mais responsável financeiramente. O modelo atual é permissivo e conivente: dirigentes se revezam no comando, empurram dívidas com a barriga e não respondem por elas. O resultado é um ciclo de irresponsabilidade que se repete mandato após mandato.
Clubes devem virar SAFs
Nesse sentido, Leila tem razão ao afirmar que qualquer projeto sério de fair play financeiro passa por transformar clubes em SAFs — sociedades anônimas com gestão mais próxima de grandes empresas. Não é solução mágica e traz seus próprios riscos, mas, pelo menos, introduz a lógica de que quem administra mal responde por isso. Porque, no fim das contas, não dá mais para normalizar a cultura da dívida eterna. Fair play financeiro não é apenas uma pauta bonita de campanha. É uma urgência moral, econômica e esportiva para o futebol brasileiro.





