Não se pode dizer que a escolha do ponta-direita francês Ousmane Dembélé, do Paris Saint-Germain, como ganhador da Bola de Ouro de 2025 tenha sido injusta. Contudo, é verdade que, embora desta vez não tenha havido polêmica nem o ranger de dentes que aconteceram no Théâtre du Châtelet, em Paris, como há um ano, quando o espanhol Rodri, do City, levou a melhor sobre o brasileiro Vinícius Jr e ficou com o troféu da revista France Football, também não dá para afirmar que essa escolha tenha sido uma barbada. No início da temporada 2024/25, o atacante não era um franco-favorito como já foi o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi. Eles dominaram a disputa entre 2008 e 2023.
Mas Dembélé também não se iguala à unanimidade de ícones franceses como Kopa, Zidane, Platini ou Benzema, nos anos em que eles chegaram ao topo da premiação. Apesar de ter sido o maior artilheiro em uma edição da Copa do Mundo, em 1958, o implacável Just Fontaine jamais ganhou uma Bola de Ouro. Idem para campeões mundiais, como os atacantes Thierry Henry ou Ribéry.

Mas Dembélé, ao contrário deles, estava no time certo. Em uma temporada em que a escolha de um jogador do PSG era amplamente esperada, após o melhor ano de sua história, o meia português Vitinha e o goleiro Gianluigi Donnarumma poderiam ter sido laureados. No entanto, pela tradição da Bola de Ouro, os atacantes largam em vantagem.
Jogador-problema antes do PSG
Assim, não seria surpreendente premiar aquele que anotou 35 gols e deu 15 assistências que ajudaram o clube francês aos títulos da Liga dos Campeões da Uefa, do Campeonato Francês e da Copa da França. O PSG também ficou em segundo lugar na Copa do Mundo de Clubes da Fifa, em julho, nos Estados Unidos.
Mas o bonde da oportunidade parecia ter passado para Dembélé. Aos 28 anos, apesar da sua habilidade com os dois pés, que chamaram a atenção desde seu início nas categorias de base do Évreux e Rennes, a fama de ciscador, junto com lesões frequentes e a reputação de ser indisciplinado, parecia que levaria o seu talento para um caminho incerto. Nos seus tempos de Borussia Dortmund e Barcelona, tornaram-se lendários os episódios em que Dembélé chegou atrasado aos treinos por passar horas diante do videogame, jogando até altas horas da madrugada e se empanturrando de hambúrgueres com os amigos.
Entre hambúrgueres e videogame
Como consequência, ele enfrentou catorze lesões musculares e ficou afastado durante 784 dias em suas seis temporadas no Barcelona. O clube o adquiriu por aproximadamente R$ 552 milhões (148 milhões de euros). Não por acaso, o atacante foi vendido para o PSG por um preço que era a metade do que os catalães pagaram.
O começo da virada na carreira de Dembélé ocorreu há com a contratação de Jean-Baptiste Dualt, ex-fisioterapeuta da seleção francesa de atletismo. Desde os tempos no Barcelona, ele passou a monitorar a carga de trabalho do jogador e acabou com o ciclo de contusões. Prosseguiu, em 2021, com o casamento com Rima Edbouche, marroquina criada na França, que trouxe disciplina para a vida doméstica de Dembélé. E teve ainda o toque decisivo do técnico espanhol Luís Enrique.
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Em vez de apostar em estrelas de primeira grandeza, como Messi, Neymar e Mbappé, todos vendidos em 2023, o treinador espanhol formou um PSG em que o jogo coletivo, intenso e taticamente organizado se tornaria mais importante do que as individualidades. Em busca de um atacante capaz de marcar os gols que a equipe precisava, o treinador quebrou a cabeça em busca de um artilheiro. Tentou com o francês Kolo Muani, jogador com nível de seleção, com o trombador português Gonçalo Ramos, com os habilidosos Barcola e Doué. “Agora eu e o PSG precisamos dos seus gols: seja egoísta”, disse o treinador a Dembélé. O camisa 10 agarrou a oportunidade e virou o melhor jogador de futebol do mundo.





