O Brasil caiu no Grupo C ao lado de Escócia, Marrocos e Haiti — uma combinação que, à primeira vista, facilita a vida de qualquer seleção que ainda esteja tateando por identidade. É um grupo que não assusta e que não põe uma pressão exagerada num Brasil que chegará ao Mundial, em junho do ano que vem, ainda em formação e em busca de um time ideal. Hoje nem Carlo Ancelotti tem certeza de qual escalação ele mandaria a campo para o jogo de estreia. E justamente por isso deveria acender um alerta. Porque o Brasil de 2026 chega à Copa precisando ainda encontrar um padrão competitivo.
Num Mundial inflado para 48 seleções, com dois classificados por grupo e ainda oito vagas extras para terceiros colocados, a eliminação precoce virou quase ficção científica. Nesse cenário, no entanto, atravessar a primeira fase deixou de ser credencial de força: virou mera formalidade. O risco real para o Brasil não é cair cedo — é avançar cedo demais na autoindulgência, acreditando que facilidade é sinônimo de preparo.

Escócia, Marrocos e Haiti oferecem três níveis distintos de leitura, mas um denominador comum: nenhum deles obriga o Brasil a jogar no limite. A Escócia é disciplinada, combativa, mas previsível. O Haiti retorna ao Mundial depois de meio século tentando sobreviver mais do que competir.
De olho em Marrocos
E Marrocos, ainda que seja o adversário mais perigoso, já não chega como a sensação de 2022: continua forte, sólido, vertical, mas não é um rival que coloque o Brasil numa zona de desconforto estrutural desde o primeiro minuto. Havia seleções mais complicadas no pote 2 e elas acabaram indo pra outros grupos.
E talvez essa seja a pior notícia possível. O time de Carlo Ancelotti ainda vive numa espécie de pré-Copa permanente. É talentoso, mas não é estável. Tem alternativas, mas não tem hierarquia. Ganha jogos, mas ainda não produz atuações que sustentem a ideia de que será protagonista. A fase de grupos poderia funcionar como laboratório — mas laboratórios demais costumam criar diagnósticos enganosos.

O Mundial de 2026 promete ser caótico, imprevisível, cheio de armadilhas criadas pelo próprio formato. E grupos acessíveis são, muitas vezes, a mais traiçoeira delas: produzem uma sensação de controle que evapora na primeira vez em que o nível sobe. A classificação virá quase por gravidade. O teste de verdade, porém, começa no momento em que o Brasil sair dessa redoma favorável e for obrigado a encarar seleções que já chegaram prontas — e não “preparando-se”.
O sorteio ajudou. Mas a Copa nunca se decide no dia da escolha dos grupos. O trabalho mais difícil começa agora. A possibilidade do hexa existe, mas ele não cairá do céu.






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