O principal tema debatido pelos presidentes dos clubes da Série A no Conselho Técnico realizado nesta semana foi, novamente, o gramado sintético. Não por acaso: o assunto entrou na pauta por pressão dos clubes que se opõem à utilização do piso artificial em detrimento da grama natural.
É um debate reacendido por um movimento que começou no meio deste ano, puxado pelo Flamengo e endossado por nomes de peso da elite do futebol brasileiro — Neymar, Lucas Moura, Thiago Silva, Gabigol e Philippe Coutinho. A alegação oficial é de que o sintético aumenta o risco de lesões, argumento ainda carente de qualquer estudo científico que o sustente.

Mas todos sabem que o centro da discussão não está na medicina esportiva. O que realmente move a ofensiva contra o sintético é a percepção de desequilíbrio técnico: a bola corre mais, o jogo acelera, a dinâmica muda. E muda, sobretudo, para pior na avaliação dos clubes acostumados ao trato da bola no gramado natural. As equipes que treinam e jogam regularmente em piso artificial — dizem os críticos — levam vantagem.
CBF vai mexer nesse vespeiro?
A CBF promete estudar o tema, mas faz bem em não se arriscar a uma decisão intempestiva. A entidade, com acerto, pretende incluir atletas profissionais no debate e, caso haja qualquer mudança, oferecer um período de transição de ao menos um ano. E faz bem: uma proibição imediata de gramados artificiais simplesmente tornaria inviáveis cerca de 30% das partidas da Série A. Cinco clubes — Palmeiras, Atlético-MG, Athletico-PR, Botafogo e Chapecoense — utilizam o sintético em seus estádios. É um número grande demais para uma canetada.

Curioso, porém, é observar que a CBF acolhe com zelo o apelo dos descontentes, mas jamais demonstrou a mesma disposição para enfrentar o problema crônico da má qualidade dos gramados naturais no Brasil. Ano após ano, jogos são disputados em campos desnivelados, esburacados, desbotados, aterrados com areia — e a entidade sempre fingiu não ver. Se houvesse para o gramado natural a mesma exigência que agora se tenta impor ao sintético, o Brasileirão já teria dado um salto de qualidade há muito tempo.
Não pode ser Flamengo x Palmeiras
O debate é importante. A opinião dos jogadores é fundamental. Mas é impossível ignorar que tudo isso parece mais um capítulo da disputa de poder que marca o futebol brasileiro contemporâneo. De um lado, o Flamengo, líder da cruzada contra o sintético. Do outro, o Palmeiras, defensor do piso artificial por não encontrar no país gramados naturais de nível minimamente confiável.
Abel Ferreira, aliás, já sintetizou a questão melhor do que qualquer dirigente poderia. “Só podemos questionar os gramados sintéticos quando todos os clubes e estádios puderem oferecer gramados naturais como o do Corinthians”. O elogio ao rival é antes de tudo o reconhecimento da excelência do campo da Neo Química Arena — talvez o único do país que resiste sem ressalvas ao comparativo europeu. Ele não deixa de ter razão.
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No fim das contas, discutir sintético ou natural é válido. Mas, se o Brasil quer realmente elevar o padrão do futebol que pratica, precisa primeiro encarar o óbvio: o problema nunca foi o sintético. O problema sempre foi a incapacidade de oferecer gramados naturais minimamente dignos.





