Tal como o simpático Juventus, o time do bairro da Moóca que adorava causar dissabores para cima dos grandes clubes de São Paulo (especialmente, do Corinthians), as cores do também periférico argentino Lanús são grená e branco. Por isso mesmo, o time fundado há 111 anos, no distrito com 461 mil habitantes, de mesmo nome, ficou conhecido como Grenate. Clube e bairro foram batizados em homenagem a Anacársis Lanús, um empresário nascido na França, mas que emigrou para a Argentina, comprou e começou a urbanizar terras na região, situada entre Buenos Aires e cidades operárias, como Avellaneda e Quilmes.
Criado em 1915 por iniciativa de um grupo de amigos que vivia nos carente bairros de Lanús, com a finalidade de promover atividades esportivas e sociais em uma região distante da Plaza de Mayo, no centro da capital argentina, não muito longe de onde nasceria Diego Maradona, o clube de camisa grená viveu durante muitos anos na corda-bamba entre rebaixamentos e acessos.

Essa história começou a ser reescrita a partir dos anos 1990, quando o Lanús montou uma equipe competitiva e difícil de ser derrotada. Foi o primeiro trabalho de destaque de Héctor Cúper, um técnico que, anos mais tarde, faria carreira na Europa. Ele dirigiu o Mallorca, na Espanha, e a Internazionale de Milão, na Itália, no fim dos anos de 1999. Sob a orientação de Cúper, o clube da periferia portenha conquistou a Copa Conmebol, o seu primeiro título internacional, em 1996. Mas sempre esteve no fim da fila dos grandes da Argentina.
Receita de R$ 262 milhões
Outras conquistas seguiram, incluindo dois títulos nacionais e a Copa do Bicentenário da Independência da Argentina. Contudo, nunca o Lanús entrou em um campeonato com um elenco recheado com nomes consagrados: até por necessidade, o clube da periferia teve de fazer uma gestão frugal, sem direito a esbanjamento. O dinheiro sempre foi curto.
Atualmente, o valor do seu elenco é estimado em R$ 262 milhões, cerca de 40% do que são avaliados os de River Plate e Boca Juniors, os dois gigantes do futebol argentino. Mas, na última década e meia, o Lanús tem feito bonito quando o assunto é brigar por títulos continentais. Desde que levantou a sua primeira taça da Sul-Americana ao derrotar a Ponte Preta por 2 a 0, na final disputada em seu estádio, a La Fortaleza, o Lanús já disputou uma final de Libertadores (perdeu para o Grêmio, em 2017) e faturou o bicampeonato no segundo torneio de clubes mais importante da Conmebol, há dois anos, em Assunção, no Paraguai.

Sob um calor escaldante e clima úmido, segurou o Atlético Mineiro e um empate por 0 a 0 durante os 120 minutos de bola rolando. Aquela final foi decidida nas cobranças de pênaltis e, então, brilhou a estrela do goleiro Nahuel Losada, que defendeu os chutes de Hulk, Biel e Victor Hugo e levou a taça para casa. Aos 32 anos, o mesmo Losada foi decisivo na conquista da Recopa contra o Flamengo. Há uma semana, na partida de ida, no Estádio La Fortaleza, ele foi seguro e um dos responsáveis pelo resultado de 1 a 0 para os argentinos, com gol de Rodrigo Castillo.
Maior clube de bairro do mundo
O jogador foi um dos protagonistas do mais novo Maracanazo na vitória sobre o Flamengo no Rio nesta quinta-feira. Mesmo sem poder contar com o orçamento dos dois maiores clubes argentinos e nem chegar perto das receitas do clube da Gávea, na última década o “maior clube de bairro do mundo”, como é conhecido, disputou três finais nas duas principais competições da Conmebol. Ou seja, neste período de dez anos, apesar de seus recursos menos abundantes, seu desempenho nos torneios de futebol da América do Sul empata com o do River e supera o de clubes mais ricos do que ele, como o Boca Juniors e o Racing.
Para se dar bem nesta temporada, a receita do Lanús repetiu o roteiro dos últimos anos: sem poder contar com estrelas, o técnico argentino Maurício Pellegrino, ex-zagueiro do Vélez Sarsfield, tratou de montar um grupo de bons atletas, mas com plano de jogo bem definido, disciplina tática e disposição física.
Melhor do que River e Boca
Foi assim que a equipe argentina executou um esquema de marcação forte, com pressão intensa, que encurtou o espaço para um time mais técnico como é o Flamengo. Atento e oportunista, o atacante Rodrigo Castillo aproveitou a desatenção da defesa rubro-negra, driblou o goleiro Rossi e chutou de fora da área para criar a surpresa e jogar uma ducha fria no Maracanã.
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O Lanús foi frio e objetivo, como um pistoleiro dos filmes de faroeste. Bastaram dois botes fatais para resolver a parada a seu favor no Rio. A três minutos do fim do jogo, quando a disputa por pênaltis parecia inevitável, Canale fez um gol de cabeça, recolocando a Recopa Sul-Americana de 2026 na direção da Argentina. E ainda teve o gol de Aquino. Foi uma conquista histórica. De time grande. Como o Moleque Travesso da Moóca nos seus bons tempos, o time da periferia de Buenos Aires derrubou um gigante do Brasil.





