Por Fabrício Barcelos

Juan, os pais nos querem advogados, médicos, engenheiros, qualquer dessas profissões antigas que garantam estabilidade. Tu sempre gostaste de estudar, nadarias de braçada nessas carreiras. Ganhar a vida com futebol? Só por cima do cadáver deles, e assim foi. Tua mãe agonizava na cama do hospital, e tu não tiveste outro jeito a não ser mentir para ela que não ia jogar em clube nenhum, tendo ainda o trabalho para se safar das suas mãos mortas.

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Ah, mas a mentira tem pernas curtas como as tuas, um acanhamento anatômico grave para quem se pretendia zagueiro. Jogaste tão miseravelmente que talvez a velha te perdoasse: duas temporadas fazendo cagada na defesa não configura trabalho. Seria só uma distração juvenil, não fosse tua mania de ruminar conexões, traçar movimentos imaginários e influenciar os outros com palavras. Trocaste o campo não por um tribunal, um consultório, uma obra. Viraste técnico e, nisso, boludo, te saíste bem demais.

FAZEM BARBARIDADES TE TRATANDO NO DIMINUTIVO

Só não entendo esse teu capricho de ir treinar no Brasil. Por que tu não fica por aqui, che? Estás rico, estável como sonharam teus pais. Lá é uma terra que fica sobre as brasas. Dizem que lá morre gente e, quando chegam ao inferno, voltam para pegar um cobertor. Não pelo clima, mas pela violência travestida de afago. Fazem barbaridades te tratando no diminutivo. E com esse sobrenome, Preciado, e esse sotaque, amigo Juan, não vão te dar mole.

O país dos caras se ergueu deixando gente de fora. Desde 1500 se viram sozinhos, sobrevivendo graças ao improviso, a algum talento útil, quando há. Na ausência deste, um tapinha nas costas, se não dissolve as maldades, ao menos dá um tempo para o miserável respirar. Assim eles vão, confundindo proximidade com intimidade – “meu irmão” para cá, “meu querido” para lá –, sabendo que um tiro pode ecoar na esquina.

“NA HORA A GENTE VÊ”

Num lugar onde filho desconfia até da mãe, ninguém parece estimulado a plantar bases sólidas, a considerar variáveis, a antever merda. O estado é de alerta eterno, guarda alta e “na hora a gente vê”, dizem, malandros. No futebol, foram campeões do mundo cinco vezes assim: apesar da cretinice de quem manda, pelo instinto malemolente de quem suava.

Só que, bueno, isso não dá mais conta das coisas. Os caudilhos que mandam na porra toda, lá chamados de cartola, não cedem um milímetro de poder, reinam como déspotas nada esclarecidos – mas vivem acuados. Criam um mundo que esmaga as pessoas por todos os lados, que vai esvaziando punhados de pó humano aqui e ali, como se orvalhasse a terra com sangue. E aí, claro, quando a Polícia Federal se põe a rondar o condomínio deles, correm atrás de tipos como tu, Juan Preciado. Só que, lembra, brasileiro sabe abandonar.

A VIDA PULSA NOS CADÁVERES

Vais surgir com esse gelzinho, barbinha escanhoada, falando afetado feito um professor, com iniciais bordadas na camisa, dando um contorno de ciência ao que eles julgam vir da alma, enfim, vais incomodar demais. Um microfone aqui e outro ali até se prestarão a te absolver, desde que, obviamente, continues servindo aos caudilhos.

Pode ganhar, enriquecer, acordar ao lado de celebridades, desfilar em escola de samba, se lambuzar de feijoada, trançar as pernas depois de umas caipirinhas, pode até virar o “Juanzinho”, mas não te iludas: quando deixares de ser útil, descobrirás que os pecados sempre foram teus. E o maior é estar vivo numa terra de mortos.

Quem vai criar dificuldades para ti? Ora, sobretudo aquele pessoal que envelheceu mal, abrindo espaço para uns CDFs gringos como tu. Seguirão emitindo ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Caminhas e sentes que alguém pisa exatamente onde acabaste de pisar. Ouves rangidos. Risadas muito velhas, cansadas de rir. Vozes gastas pelo uso. Nada disso se apaga. É um cenário morto onde a vida pulsa nos cadáveres. Fica tranquilo quanto a uma coisa: tu não vais ser tratado a pontapés. São os sussurros que vão te matar.

QUEM É ELE

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.

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