A demissão súbita e surpreendente de Hernán Crespo do comando técnico do São Paulo ainda carece de explicações convincentes. A nota não diz nada sobre as razões, mas nos bastidores do clube a ideia central é que algumas decisões recentes do treinador em ralação aos treinos provocou divergências internas incontornáveis. Seja elas quais forem, precisam ser melhor esclarecidas. Até o momento do anúncio da demissão, não havia nenhum indicativo claro de que o trabalho do treinador estivesse em desaprovação dentro da diretoria.

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Até porque, depois de um início turbulento e instável de temporada, o São Paulo vivia justamente o seu melhor momento técnico sob o comando do argentino. Aos poucos, Crespo vinha construindo um padrão de jogo novo e consistente. Criticado por morrer abraçado ao esquema de três zagueiros, ele já havia capitulado em uma de suas convicções e passou a armar a equipe em um 4-4-2 clássico, mudança que proporcionou melhor encaixe para jogadores como Danielzinho, Marcos Antônio e Lucas Moura.

Crespo deu folga aos jogadores na semana passada e foi demitido na reunião desta segunda-feira, dia 9 / SPFC

A eliminação para o Palmeiras nas semifinais do Campeonato Paulista já parecia digerida internamente, sobretudo a partir de uma análise que levava em conta erros de arbitragem que, na visão tricolor, acabaram pesando contra o time naquele confronto. Por isso é difícil compreender os motivos da decisão. O comunicado oficial da diretoria, evasivo e protocolar, certamente esconde algo mais grave do que a avaliação de que o trabalho não caminhava de acordo com os objetivos traçados no planejamento inicial.

Filipe Luís e Crespo

Em muitos aspectos, essa demissão lembra a absurda degola de Filipe Luís no Flamengo. A diferença é que, no caso da Gávea, o presidente Luiz Eduardo Baptista assumiu publicamente que a mudança era um desejo pessoal seu, fruto de uma avaliação própria de que o futuro do trem flamenguista poderia sair dos trilhos se não houvesse um novo maquinista. No caso do Tricolor ainda não apareceu o “pai da ideia”.

O presidente Harry Massis, cada vez mais convencido de que está ali para cumprir um ritual de interinidade permanente, não demonstrou até aqui cacife político para bancar uma decisão tão importante. Já o executivo de futebol, o ex-jogador Rafinha, também não parecia convencido de que o técnico não era o ideal.

45 pontos para não cair

Pelo contrário. Ao assumir suas novas funções no clube, Rafinha tinha tudo nas mãos para demitir Crespo, se assim desejasse. Afinal, ele chegou na semana em que o São Paulo colecionava derrotas e o treinador parecia resignado com um papel de coadjuvante na temporada, ao afirmar que sua expectativa era alcançar os 45 pontos no Campeonato Brasileiro Série A para escapar do rebaixamento. Se quisesse, o executivo poderia ter usado um discurso tão entreguista — e tão distante da realidade histórica do clube — como justificativa para a demissão.

Rafinha chegou logo após a derrota do time no Paulistão, mas seguiu com Crespo: São Paulo é vice do Brasileirão / SPFC

Mas não o fez. Botou panos quentes e preferiu seguir com Crespo. E, juntos, começaram a trilhar novamente um caminho de vitórias. Por isso a demissão agora soa fora de hora, desconectada de qualquer padrão recente de irregularidade. “Divergências internas” podem significar muitas coisas. Para o bem do clube — e do próprio treinador — seria saudável que a diretoria fosse mais clara. Ao que se sabe, Crespo chegou a ser sondado pelo River Plate para assumir o lugar de Marcelo Gallardo, mas preferiu permanecer no Morumbi. Agora, o clube argentino já seguiu outro caminho ao contratar Eduardo Coudet.

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De todo modo, a troca de técnico neste momento impõe um recomeço que talvez pudesse ter sido evitado. É como começar do zero uma temporada que já avança para o terceiro mês, com o Brasileirão em andamento e a Copa Sul‑Americana batendo à porta. A sensação que fica é que o São Paulo jogou no lixo os dois primeiros meses do ano e agora aposta, mais uma vez, no velho conto de fadas que transforma a troca de treinador em solução mágica — ao menos no imaginário do torcedor. Nada garante que tudo será melhor sem Crespo no comando. O Tricolor paga para ver. E só os resultados vão dizer se essa foi uma boa aposta.

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