No Corinthians, a escolha de um substituto para Dorival Júnior virou a ilusão de que um novo comando será a solução de todos os problemas do time, como num passe de mágica.
Não é assim. O problema é anterior. É estrutural. E, sobretudo, repetido à exaustão.
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Acertado com o Timão, Fernando Diniz vai precisar entender uma coisa simples: não se trata de reinventar o time. Trata-se de parar de errar exatamente nos mesmos pontos em que todos os outros erraram. Há pelo menos cinco fraquezas evidentes que o novo treinador precisará atacar com urgência para poder chegar vivo até o fim da temporada. Se ignorá-los, ele pode cair antes.

Saída de bola
O primeiro deles é a saída de bola. O Corinthians transformou um fundamento básico do jogo em um labirinto sem saída. Sob o comando de Dorival Júnior, isso atingiu níveis quase caricatos: troca de passes laterais entre zagueiros, de um lado ao outro, sem progressão, sem intenção, sem risco — e, por isso mesmo, sem efeito. Uma posse de bola que engana. Parece controle, mas é impotência.
Contra o Internacional, foram dezenas de recuos para o goleiro Hugo, empurrado a rifar a bola porque não tem no jogo com os pés uma virtude. O novo técnico precisa, antes de qualquer desenho tático sofisticado, dar fluidez ao básico: fazer a bola sair da defesa com propósito, com apoio, com movimento. Sem isso, não há ataque. Só ilusão.
Lentidão e passividade
Daí nasce o segundo problema: a lentidão — e, pior, a passividade. O Corinthians é um time que joga em câmera lenta. A bola demora uma eternidade na defesa. Quando a inversão de corredor acontece, o adversário já se recompôs. Quando o passe vertical surge, o espaço já fechou. E, diante disso, o time aceita a marcação. Naturaliza. Recuar vira zona de conforto. Enquanto o placar está zerado, há até uma falsa sensação de controle. Mas basta sofrer um gol para o desespero se instalar em campo: erros técnicos se multiplicam, passes não encontram destino e jogadores começam a se esconder do jogo. O próximo treinador precisa romper com essa cultura silenciosa da conformidade. Futebol exige urgência — mental e física.
Falta de agressividade
O terceiro ponto é a falta de agressividade. Jogar em Itaquera já foi sinônimo de imposição. Hoje, não assusta mais ninguém. O Corinthians não agride, não empurra o adversário para trás, não cria pelos lados, não tem profundidade. Vive de aproximações estéreis e de bolas esticadas para Yuri Alberto, quase sempre em desvantagem.

O centroavante, muitas vezes, é um figurante — toca pouco na bola, participa pouco do jogo e sobrevive de disputas ingratas. Quando há alguém por perto para dividir essa responsabilidade, o cenário melhora. Mas isso não pode ser exceção. O time precisa construir situações, não apenas reagir a elas. Precisa levar o jogo ao ataque com intenção, não com desespero.
Força mental
O quarto aspecto é emocional — e talvez o mais negligenciado. O Corinthians é um clube em permanente ebulição. Crises políticas, instabilidade financeira, atrasos, ruído interno, pressão externa. O ambiente contamina. E o jogador sente. Sem estrutura emocional, o atleta simplifica demais, evita risco, foge da responsabilidade. O erro deixa de ser parte do jogo e passa a ser um fantasma. Cabe ao novo treinador não apenas organizar o time, mas blindar o elenco. Criar um ambiente mínimo de segurança onde seja possível jogar futebol sem o peso constante do colapso. Ignorar isso é repetir o fracasso.
Preparo físico
Por fim, o aspecto físico — o mais concreto de todos. O futebol atual não permite concessões. E o Corinthians, hoje, perde quase todos os duelos: na corrida, no corpo, na disputa aérea, na segunda bola. Há um descompasso evidente em relação aos adversários. Some-se a isso a quantidade de lesões, a dificuldade de repetir escalações, e o resultado é um time que nunca se consolida. Nem taticamente nem tecnicamente. Dorival ainda agravou o cenário ao poupar jogadores em momentos que exigiam afirmação, não gestão. O próximo treinador precisa entender que, sem competitividade física, qualquer ideia de jogo vira teoria.
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No fim das contas, o nome importa menos do que a capacidade de enfrentar essas cinco feridas abertas. Porque elas não são novas. Estão aí há meses — talvez anos — atravessando comissões técnicas, elencos e discursos. Fernando Diniz não encontrará um desafio tático. Encontrará um time que precisa reaprender o básico. E, no futebol, o básico — quando mal feito — costuma ser o problema mais difícil de todos de resolver.





