O Morumbis terminou a noite desta terça-feira dividido entre duas sensações. A primeira delas é clara e impossível de ignorar: a chegada de Dorival Júnior, agora na sua terceira passagem, já provocou uma mudança perceptível de ambiente no São Paulo. A segunda talvez seja ainda mais importante para o futuro imediato do clube: os velhos defeitos continuam ali, vivos, perigosos e capazes de transformar um jogo aparentemente controlado num drama desnecessário.
O empate por 1 a 1 diante do Millonarios, pela Copa Sul-Americana, acabou funcionando como um retrato quase perfeito do momento tricolor. Há um novo astral no ar. Mas ainda existe um time emocionalmente instável, vulnerável e incapaz de sustentar segurança mesmo quando a partida parece caminhar tranquilamente para o desfecho esperado.

E isso ficou muito claro ao longo da partida, a ponto de o empate acabar sendo um bom resultado diante de uma derrota que esteve iminente no momento em que o time colombiano teve um pênalti para fazer 2 a 1, mas acabou desperdiçando a oportunidade.
Dorival não é um estranho
O São Paulo começou a partida como se quisesse mostrar imediatamente uma ruptura em relação ao ambiente pesado dos últimos meses. A torcida comprou a ideia. O Morumbis apoiou o time desde o início, cantou durante praticamente todo o jogo e demonstrou uma disposição muito maior para embarcar no projeto conduzido por Dorival. Talvez porque Dorival não seja visto como um estranho. Em sua terceira passagem pelo clube, ele retorna carregando lembranças afetivas importantes, sobretudo pelo título da Copa do Brasil de 2023 e pela identificação construída naquele período antes de assumir a seleção brasileira.

Roger Machado jamais conseguiu estabelecer essa conexão. Muito porque acabou pagando um preço que nem era totalmente dele. A maneira traumática com que Hernán Crespo deixou o clube contaminou o ambiente, e Roger desembarcou no Morumbi já sob desconfiança. Mesmo quando o São Paulo fazia partidas razoáveis, a arquibancada parecia sempre pronta para explodir. Havia um desgaste emocional permanente.
Morumbis de atmosfera nova
Nesta terça, pelo menos na atmosfera do estádio, isso mudou. Dentro de campo, porém, a reconstrução ainda está longe de acontecer plenamente. Dorival optou por não promover revoluções. Manteve a base escalada anteriormente, armando a equipe em seu sistema habitual: linha de quatro defensores, dois volantes, uma linha de três mais móvel atrás do centroavante e atacantes abertos pelos lados. O São Paulo começou pressionando, ocupando o campo ofensivo e sem permitir espaços ao Millonarios, embora ainda demonstrasse dificuldades na criação das jogadas e no último passe.
O gol saiu cedo, aos oito minutos, quase como um presente inesperado para aliviar a tensão da estreia. Luciano recebeu de Bobadilla na entrada da área e arriscou de longe. O goleiro Novoa falhou grotescamente ao deixar a bola escapar, colocando o São Paulo em vantagem no Morumbis. O atacante agora está a apenas três gols de alcançar Careca entre os maiores artilheiros da história do clube.
Depois disso, o Tricolor teve oportunidades para ampliar. Controlou territorialmente boa parte do primeiro tempo, embora sem transformar superioridade em domínio absoluto. O Millonarios também assustou. O cenário parecia relativamente confortável. E talvez justamente por isso o empate tenha provocado sensação tão amarga. Porque o São Paulo voltou a repetir os mesmos erros que o acompanham há meses.
Erro de Dória
A equipe perdeu intensidade, ficou vulnerável defensivamente e passou a transmitir insegurança conforme o relógio avançava. Aos 35 minutos do segundo tempo, veio o castigo. Após falha de Dória, Hurtado recebeu liberdade na entrada da área e acertou o chute de fora para empatar o placar, jogando um banho de água fria no Morumbis. Cinco minutos depois, Alex Castro aplicou um drible desconcertante em Dória e sofreu um pênalti.
O roteiro da estreia de Dorival caminhava rapidamente para uma tragédia. Mas o São Paulo escapou graças ao erro imperdoável de Contreras, que mandou a cobrança para fora e impediu uma derrota que teria aprofundado ainda mais os fantasmas recentes do clube. No fim, o empate acabou deixando uma impressão estranha. O ambiente melhorou. A arquibancada voltou a acreditar. Dorival parece novamente em casa. Mas o time segue carregando cicatrizes evidentes dentro de campo.
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O São Paulo continua líder do Grupo C da Sul-Americana, agora com nove pontos, mas a situação ainda exige atenção. O confronto com o Boston River passa a ser decisivo para garantir a classificação direta à fase de mata-mata sem depender de contas mais complicadas.





