De acordo com publicações feitas nesta semana, os bastidores da convocação de Neymar para a disputa da próxima Copa do Mundo contaram com uma conversa olho no olho entre o técnico Carlo Ancelotti, o diretor de seleções da CBF, Rodrigo Caetano, e o próprio jogador, quatro dias antes do anúncio da lista final dos 26 convocados. Técnico e dirigente quiseram sentir o pulso de Neymar diante de uma advertência de que não haveria privilégios para o craque em caso de uma eventual convocação.
Mais: Neymar teria de estar ciente da sua condição de apenas mais um no grupo, tendo que aceitar e cumprir as normas e procedimentos estabelecidos pelos gestores para todos os convocados.
Por óbvio esse seria um recado desnecessário num ambiente profissional em que se supõe que todos os trabalhadores têm o mesmo valor, os mesmos deveres e os mesmos direitos. Mas o cuidado se aplica e se justifica porque é sabido que Neymar gosta de receber tratamento majestático e ser tratado como prima donna do elenco.

Portanto, para não correr riscos de uma quebra na relação de hierarquia e de um foco de levante interno, Ancelotti e Rodrigo Caetano acharam por bem avisar Neymar sobre como a banda vai tocar daqui para a frente — e que esteja ciente de que pode ser que vá fazer figuração lá atrás no palco tocando prato ao invés de estar ao lado do maestro na posição de primeiro violino.
Há um combinado com Neymar
Por honestidade, Ancelotti deixou claro na coletiva pós-convocação que não há lugar garantido nem cativo para nenhum jogador. Dessa maneira, quem vai determinar a ordem de protagonismo no time é a bola, é o treino, o físico e o comprometimento, além da dedicação aos 50 dias de concentração e trabalho pesado. Naquela conversa prévia por vídeo, Neymar prometeu não desapontar Ancelotti. Resta saber se vai conseguir cumprir o trato, porque Neymar não está acostumado a ser contrariado e controlado como se fosse igual aos demais.

E aí reside o centro do debate. Convocar Neymar nunca foi apenas convocar um jogador. A seleção brasileira, ao longo da última década, aprendeu a conviver com aquilo que pode ser chamado de “pacote Neymar”: um conjunto de interesses, privilégios, personagens, acordos comerciais e permissividades que acabaram sendo normalizados em torno da principal estrela do futebol brasileiro. Neymar sempre chegou acompanhado de um universo próprio, e muitas vezes se sentiu maior do que a própria seleção.
Sem os parças na Copa
O caderno de restrições da CBF para esta Copa certamente leva em conta os erros do passado, quando se permitiram muitos caprichos aos jogadores e seus familiares, empresários, amigos, artistas, procuradores e todos os personagens que gravitam em torno desse universo de privilégios e benesses — os chamados “parças”.
Neymar esteve nas últimas três Copas e nunca se preocupou em deixar de ser o “Menino Ney” rodeado de privilégios, parentes, amigos e aspones. Seu pai, por exemplo, costumava ter trânsito livre na concentração. Seus compromissos publicitários sempre tiveram espaço na agenda da seleção. Suas redes sociais sempre funcionaram em carga máxima para turbinar publicações patrocinadas ou de caráter meramente pessoal.

Agora, ao que parece, tudo isso será evitado — ou ao menos controlado. Será que Neymar vai conseguir sobreviver sem o “pacote Neymar”, que sempre fez dele um jogador incomum? Ancelotti promete um ambiente em que todos os jogadores serão iguais, onde até então Neymar era mais igual do que os outros, filosoficamente falando.
Ancelotti disse que todos são iguais
O sonho do hexa certamente passa pela sintonia fina do ajuste que precisa ser feito de ambos os lados. Da parte da CBF caberá firmeza para impor seu decálogo de boas práticas de forma horizontal, sem exceções. Para os jogadores, em especial para Neymar, está posto o desafio de pensar mais no grupo do que no indivíduo, mais no sucesso da seleção do que na performance de audiência na internet, mais no projeto de ser campeão do que ser apenas a prima donna da companhia.
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Como até aqui vinha num viés de baixa, lutando contra contusões, preparo físico débil e performance esportiva longe de seu range padrão, Neymar baixou a bola e aceitou as exigências do momento. Esperamos que ele não se deixe contaminar pelo vírus da arrogância e da prepotência e aceite o papel que lhe couber nessa história.





