Enquanto os Estados Unidos chegam à Copa cercados por controvérsias políticas, críticas internacionais ao governo Donald Trump, relatos de revistas rigorosas em fronteiras e até casos de impedimento de entrada no país, e o México convive com protestos nas ruas da Cidade do México, o Canadá parece ocupar um lugar mais silencioso no mapa emocional do Mundial. Menos barulho não significa, porém, menos tensão.
Co-anfitrião, o Canadá estreia como país-sede contra Bósnia e Herzegovina, em Toronto, nesta sexta-feira, às 16h (horário de Brasília). Às vésperas de a bola rolar, o país não tem, ao menos por enquanto, a mesma temperatura política dos vizinhos. Mas tem uma pergunta que atravessa Toronto e Vancouver, as duas cidades-sede do país: o espetáculo vale o preço?

O que pensa a população?
É nesse ponto que a Copa canadense começa a ganhar uma camada mais interessante. Oficialmente, o discurso é de orgulho. Serão 13 partidas, seis em Toronto e sete em Vancouver, em um torneio que pretende consolidar o futebol em um país historicamente mais associado ao hóquei, ao basquete, ao beisebol e ao futebol americano.
Pesquisas recentes ajudam a entender o ambiente, mas também exigem contexto. Em dezembro de 2025, um levantamento do instituto de pesquisa Léger apontou que o apoio nacional à realização de jogos no Canadá estava na casa de 73%. Era um número forte, especialmente quando comparado ao clima mais polarizado de outros países-sede. Em março de 2026, outra pesquisa da mesma Léger indicou que 69% dos canadenses já sabiam que o país dividiria a organização da Copa com Estados Unidos e México, uma alta de 12 pontos em relação a novembro de 2025. A Copa, como ideia, agradava e ganhava presença no imaginário nacional. O problema começava quando ela deixava de ser abstração e virava gasto público, bloqueio de ruas, segurança reforçada, obras, logística e promessa de retorno econômico.
Mudança de humor
Em novembro de 2025, outra empresa de pesquisa, Angus Reid Institute, já apontava que 71% dos canadenses só consideravam a Copa vantajosa para as cidades-sede se as receitas igualassem ou superassem os custos. O mesmo levantamento mostrava que 71% achavam os ingressos caros demais para comparecer. Neste mês, pesquisa divulgada pela CityNews, com base em dados do Angus Reid, indicou uma percepção ainda mais dura nas duas regiões diretamente envolvidas: 70% dos entrevistados na Grande Toronto e 72% na região metropolitana de Vancouver diziam que os custos públicos da Copa não compensavam os benefícios esperados. É uma fotografia reveladora: o Canadá gosta da Copa quando olha para ela como país, mas desconfia quando olha como contribuinte.
O debate não nasce do desprezo pelo futebol. Pelo contrário. O país vive um momento raro de crescimento esportivo. A seleção masculina disputou a Copa de 2022, no Catar, depois de 36 anos de ausência. Perdeu seus três jogos, mas mostrou uma identidade mais agressiva, rápida e competitiva. Desde então, o futebol ganhou espaço, especialmente pela geração liderada por Alphonso Davies, Jonathan David, Stephen Eustáquio e Cyle Larin. A chegada do técnico Jesse Marsch ao comando também deu ao projeto uma linguagem mais intensa, de pressão, transição e coragem competitiva.
Canadá sob pressão
Só que a Copa de 2026 coloca o Canadá diante de uma cobrança inédita. Não basta participar. Jogando em casa, a seleção precisa vencer pela primeira vez em Mundiais e, se possível, avançar à fase eliminatória. O grupo permite ambição, mas não autoriza soberba. O Canadá está na chave com Bósnia e Herzegovina, Catar e Suíça. A Suíça aparece como equipe mais estável e favorita natural ao primeiro lugar. A Bósnia surge como adversária direta na briga pela classificação. O Catar, embora venha de uma Copa de 2022 frustrante dentro de casa, carrega experiência recente de grande torneio e não pode ser tratado como figurante.
A abertura contra a Bósnia, em Toronto, tem cheiro de decisão antecipada. Para uma seleção que ainda busca a primeira vitória em Copas, estrear pontuando muda tudo. Vencer, então, mudaria o humor do país. Derrotar a Bósnia permitiria ao Canadá enfrentar o Catar, em Vancouver, com chance real de encaminhar a vaga. Tropeçar na estreia, por outro lado, transformaria o segundo jogo em teste de nervos.
Há ainda o fator Alphonso Davies, que virou o primeiro grande teste emocional da Copa canadense. O país estreia sem o rosto mais reconhecido de seu futebol. A boa notícia é que ele não foi cortado, está com o grupo e ainda mira participação no torneio. A notícia dura é que Canadá x Bósnia, possivelmente o jogo mais importante do grupo para os anfitriões, será jogado sem seu capitão e principal símbolo técnico.

Cardápio imperdível
Ainda assim, pela primeira vez, o país tem motivos concretos para acreditar. No formato ampliado da Copa, com 48 seleções, passam os dois primeiros de cada grupo e também os melhores terceiros colocados. Isso reduz o peso da perfeição e aumenta o valor de cada ponto. Para o Canadá, a matemática é clara: vencer um jogo pode ser histórico; vencer um jogo e empatar outro pode ser suficiente para seguir vivo; vencer dois colocaria o país em outra dimensão.
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O calendário canadense também ajuda a contar essa história. Dos 13 jogos no país, ao menos seis têm apelo evidente. Canadá x Bósnia, pela estreia histórica. Canadá x Catar, pelo peso direto na classificação. Suíça x Canadá, por possível definição do grupo. Alemanha x Costa do Marfim, em Toronto, pela força da camisa alemã e pelo contraste físico e técnico com uma seleção africana sempre perigosa. O jogo de 32 avos em Vancouver por abrir o mata-mata no país. E a oitava de final também em Vancouver, o maior evento esportivo da Copa em território canadense.





