O Corinthians está conseguindo a proeza de destruir um patrimônio que levou mais de uma década para construir. E, desta vez, não se trata de uma dívida, de uma crise política ou de um resultado ruim em campo. Trata-se da destruição de um patrimônio técnico e simbólico: o gramado da Neo Química Arena.

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Durante anos, o piso do estádio foi tratado como referência nacional. Jogadores adversários faziam questão de elogiá-lo. Técnicos destacavam a qualidade da superfície. Comparações com os melhores gramados da Europa deixaram de soar como exagero para se tornarem rotina. A bola corria com velocidade, os passes ganhavam precisão, o Corinthians transformava aquele campo em uma arma competitiva e os visitantes sabiam que encontrariam condições de jogo praticamente perfeitas. Hoje, tudo isso virou passado.

Gramado da Neo Química Arena foi duramente criticado pelo técnico Fernando Diniz, do Corinthians / Neo Química Arena

É difícil acreditar que justamente o clube que tanto se orgulhava de possuir o melhor gramado do Brasil tenha permitido que ele chegasse ao pior estado desde a inauguração da Arena, em 2014.

Fracasso na reforma

A reforma realizada durante a paralisação da Copa do Mundo fracassou. Não há outro verbo possível. O resultado entregue está muito abaixo do que foi prometido e muito distante do padrão que transformou a Neo Química Arena em referência. Mais grave do que a perda estética é o risco esportivo.

No primeiro treinamento realizado após a troca do piso, jogadores já reclamavam do excesso de areia espalhada sobre a grama. Houve escoriações, desconforto e até uma lesão no joelho de Raniele. Dias depois, diante do Athletico-PR, surgiu outro episódio preocupante: Zakaria Labyad prendeu o pé no gramado e deixou o campo com suspeita de uma lesão no joelho esquerdo. Outros atletas também encontraram dificuldades para manter o equilíbrio e controlar a bola. Quando o gramado deixa de ser apenas ruim e passa a representar um risco físico aos jogadores, a discussão muda completamente de patamar.

A crítica de Diniz

Fernando Diniz resumiu o sentimento de quem conhece aquele estádio desde a inauguração. Disse ser frustrante ver o Corinthians perder uma das suas maiores armas. Foi além ao classificar o atual piso como o pior da história da Arena. E fez uma observação que expõe o tamanho do problema: se o campo voltaria sem condições de jogo, alguém deveria ter avisado. Afinal, jogadores encontraram areia em excesso, irregularidades no piso e um campo que, em vez de favorecer o futebol, passou a atrapalhá-lo.

Neo Química Arena: estádio do Corinthians já foi também de abertura de Copa do Mundo / Corinthians

A administração da Arena admite que o desempenho ficou abaixo do esperado. Explica que a troca ocorreu pela primeira vez durante o inverno, seguindo critérios de sazonalidade, e informa que a empresa responsável trabalha na retirada do excesso de areia e na estabilização do solo. Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas nenhuma dessas justificativas responde às perguntas realmente importantes.

Por que uma intervenção planejada produziu um resultado tão ruim? Quem aprovou a entrega de um gramado nessas condições? Quem autorizou o retorno das atividades sabendo que o piso ainda precisava de ajustes? Quanto tempo será necessário para que o Corinthians volte a ter um gramado minimamente aceitável? E, sobretudo, quem responderá caso se confirme que atletas sofreram lesões em consequência direta das condições do campo?

A diretoria promete cobrar explicações da empresa responsável. É uma reação correta, mas tardia. Os problemas já eram conhecidos desde os primeiros treinos. Esperar que eles aparecessem também durante uma partida oficial apenas aumentou a exposição do clube e colocou jogadores em risco.

Referência até dia desses…

O episódio ainda reforça uma sensação incômoda: a Neo Química Arena vem perdendo, aos poucos, características que fizeram dela um estádio admirado em todo o país. Primeiro vieram as alterações arquitetônicas, com a retirada das cadeiras atrás dos dois gols para ampliar a capacidade de público. A decisão atendeu às reivindicações das torcidas organizadas, mas descaracterizou um projeto concebido para atender aos padrões internacionais que o Brasil apresentaria na Copa do Mundo de 2014. O ganho de alguns milhares de lugares dificilmente compensa a perda de identidade de uma arena pensada para ser referência em conforto, organização e modernidade.

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Agora desaparece também outro símbolo daquele projeto: um gramado impecável, respeitado por todos. Patrimônios não desaparecem apenas quando um prédio é demolido ou um troféu é perdido. Eles também morrem quando deixam de representar aquilo que os tornou especiais. O Corinthians ainda pode recuperar o gramado. Isso depende de competência técnica, transparência e cobrança firme sobre quem executou uma reforma que claramente não entregou o prometido. O que será muito mais difícil recuperar é a imagem de excelência que a Neo Química Arena levou anos para conquistar e que bastaram poucas semanas para colocar em xeque.

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