Era puro suco de Libertadores. Frio, papel picado no gramado, estádio lotado, cantos que não paravam nunca e uma torcida fazendo do Gigante de Arroyito aquilo que os estádios argentinos costumam ser em noites de Libertadores: uma extensão do inferno — lugar onde jogar futebol é apenas uma parte do desafio. A outra é suportar tudo o que decorre desse ambiente hostil. E o Corinthians suportou, com muita autoridade, coragem e entrega. Com essa atitude, o Corinthians arrancou um 0 a 0 sofrido, heroico até certo ponto, e voltou de Rosário com um resultado que, diante das circunstâncias, vale muito mais do que o placar sugere.
Na próxima quinta-feira, na Neo Química Arena, em Itaquera, o time encara o segundo confronto que vale a vaga às quartas de final da Libertadores. E agora sem a obrigação de correr atrás de uma desvantagem, como aconteceu há apenas dez dias, quando perdeu por 2 a 0 para o Internacional no primeiro jogo da Copa do Brasil e acabou eliminado. Desta vez, o Corinthians aprendeu a lição. Não era noite para jogar bonito. Era uma noite para resistir. Deu certo!

Corinthians copeiro
O Rosário Central transformou o Gigante de Arroyito numa panela de pressão, com direito a provocações, divididas fortes, empurrões, discussões e aquela sensação permanente de que cada lance poderia desencadear alguma confusão.
Fernando Diniz armou seu time para ser competitivo. E para ter a bola quando fosse possível, atrair o adversário e tentar encontrar espaço nas transições, principalmente com a velocidade de Kaio César. Mas havia uma dificuldade evidente: os laterais tinham pouco espaço para se lançar ao ataque. Matheuzinho precisou trabalhar dobrado para controlar a movimentação de Campaz. Bidu teve um desafio extra: conviver com a presença de um personagem que é uma lenda do futebol argentino. Ángel Di María, aos 38 anos, continua sendo um jogador capaz de organizar o ataque com um passe, uma inversão de lado ou uma arrancada.
Duas chances no começo
Apesar do sufoco, curiosamente, foi o time brasileiro que criou as duas melhores oportunidades do primeiro tempo. A primeira apareceu aos 32 minutos, quando o Corinthians conseguiu respirar e chegar ao gol rival. Bidu lançou Pedro Raul, o centroavante fez o pivô e encontrou Matheuzinho. O lateral se atrapalhou, recuperou a bola num carrinho e conseguiu servir Kaio César na entrada da área. O atacante puxou para a esquerda e bateu de chapa. A bola passou por cima, rente ao travessão.
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Dez minutos depois, quase saiu o gol. Matheuzinho cruzou com força, a bola atravessou a área e encontrou Matheus Bidu. O lateral-esquerdo cabeceou e acertou o travessão. A bola subiu, voltou e bateu na trave antes de sair pela linha de fundo. Por muito pouco, o Corinthians não saiu para o intervalo em vantagem. Foi um primeiro tempo de muita disputa física, duas confusões generalizadas e cinco cartões amarelos. Mas também foi um Corinthians capaz de encarar o Rosário de igual para igual, sem se deixar contaminar pela temperatura da partida.
Sufoco e expulsão
No segundo tempo, o Rosário Central voltou mais agressivo, avançou suas linhas e começou a empurrar o Corinthians para trás. Di María passou a aumentar a intensidade das inversões de lado, Campaz continuou infernizando Matheuzinho e o time argentino transformou a partida num exercício de paciência. Nos últimos dez minutos, depois da expulsão de Allan, a resistência ganhou contornos ainda mais dramáticos. O Corinthians recuou inteiro, fechou os espaços e passou a conviver com uma sequência de bolas cruzadas na área.

A estratégia de dar a vida pela missão de não sofrer gols deu certo e a vaga está em aberto — mas agora mais possível do que se poderia supor antes dessa primeira batalha. No fim do jogo, o goleiro Hugo disse que pediu ao árbitro o protocolo de racismo porque foi seguidamente ofendido pela torcida argentina. “Aqui é sempre assim. Me chamaram de negro, mono, preto de merda… Levei isso ao árbitro e espero alguma providência”, desabafou o goleiro.





