Há limites que não podem ser ultrapassados nem mesmo em nome da mais apaixonada rivalidade. O que aconteceu na Neo Química Arena, depois da derrota do Corinthians por 1 a 0 para o Santos, ultrapassou todos eles. Torcedores corintianos atacaram de forma violenta e irracional um menino de apenas 8 anos cujo “crime” foi pedir — e receber — uma camisa de Neymar ao término da partida.

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As imagens captadas pela televisão e reproduzidas em larga escala nas redes sociais dão a exata dimensão do ato de selvageria e covardia dos corintianos. Torcedores — se é que podem assim ser chamados — dirigiram impropérios e ameaças ao garoto, ao pai e à mãe, que precisaram deixar o estádio escoltados pela Polícia e por seguranças do clube, pelo campo de jogo, para evitar que fossem fisicamente agredidos.

Cenas vergonhosas

A cena é vergonhosa. Depõe contra a civilidade, contra a esportividade e, mais do que isso, contra a própria história do Corinthians. O clube deveria se orgulhar de suas origens populares e inclusivas e de seu legado de defesa da democracia como forma de expressão livre das pessoas.

Torcedor do Corinthians chora ao receber a camisa de Neymar em Itaquera: alegria e estupidez / Reprodução

Não se pode aceitar como normal que uma criança, chorando de emoção por ter conseguido a camisa de um ídolo mundial, mesmo que ele não jogue no clube do seu coração, seja hostilizada como se representasse uma ameaça aos ideais de um corintiano apaixonado. Isso é cegueira. Passionalismo levado ao extremo. É irracionalidade. E não pode passar em branco.

Cadê o MP?

Da mesma forma que identifica e entrega às autoridades torcedores que infringem os códigos de conduta dentro do estádio, a direção do Corinthians tem a obrigação de identificar os responsáveis por atacar essa família e excluí-los do convívio social do estádio. No limite, o Ministério Público e os órgãos da Justiça Desportiva, que tantas vezes procuram casos que lhes proporcionem holofotes, também não podem se omitir agora. É preciso que atuem para identificar e punir os responsáveis.

Recentemente, Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, fez um triste diagnóstico do futebol brasileiro ao dizer que o nosso futebol “está doente”. A julgar pelo que se viu em Itaquera, está mesmo. Na verdade, talvez seja a própria sociedade que esteja doente, como um organismo vivo de um país polarizado, que não aceita o contraditório, que cria sua própria leitura do que é democracia e que se move, cada vez mais, guiada por discursos de ódio e intolerância.

Irracionalidade corintiana

Não dá para aceitar que uma criança, em toda a sua pureza de amante do futebol, diante de um ídolo, seja tratada como um agente perigoso a serviço do mal, dessa irracionalidade que transforma torcidas em grupos organizados em torno da lógica do poder e da guerra. Qual é o grau de nocividade do gesto desse menino ao pedir uma camisa a um jogador de projeção mundial, idolatrado por crianças do mundo inteiro, independentemente da cor da camisa de seu clube do coração?

Quantas vezes Ronaldo Fenômeno, por exemplo, não deu camisas do Corinthians, autografadas, para torcedores de outras equipes? Quantas vezes Messi não deu camisas para torcedores que não eram argentinos? Há jogadores que transcendem a ligação com um clube ou com uma seleção. Tornam-se personagens maiores do que qualquer paixão, qualquer rivalidade. Neymar é um deles.

O que merece reflexão, mais do que crítica, é avaliar a extensão do estrago psicológico que esse gesto furioso de alguns torcedores pode causar nesse menino e em sua família. Qual será o desejo ou o interesse deles em voltar a frequentar um estádio de futebol em segurança? Quantas outras famílias não pensarão da mesma maneira, no sentido de se proteger, ao assistir a essas cenas pela televisão? O que fizeram esses torcedores irracionais foi um desserviço ao futebol, para além de uma clara demonstração de falta de educação, civilidade e respeito ao semelhante.

Falência do Estado

É por isso que o futebol brasileiro já vive em uma espécie de estado de exceção, em que a Polícia Militar não consegue oferecer garantias mínimas para que um clássico estadual, em algumas cidades, possa ser disputado com as duas torcidas presentes. Em São Paulo, há anos os jogos são disputados com torcida única. Isso já representa, por si só, a falência do Estado como agente protetor da sociedade. Mas também expõe algo ainda mais grave: a absoluta falta de respeito ao ser humano nas relações pessoais de uma sociedade adoecida e transformada pelo ódio.

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O que também choca e aumenta a dimensão da gravidade deste episódio é que, desta vez, o fato ocorreu longe das torcidas organizadas, responsabilizadas e condenadas por atos de violência nos estádios. O incidente aconteceu no setor Oeste Inferior da Neo Química Arena, onde são cobrados alguns dos ingressos mais caros do estádio, com valores que chegam a beirar os R$ 500 por pessoa. Pressupõe-se, portanto, que quem está ali pagou por um lugar nobre para ter mais segurança, conforto e tranquilidade para frequentar um estádio de futebol com a família.

Também seria razoável supor que pessoas capazes de pagar esse valor por um ingresso são as mesmas que pagam caro para assistir a shows, visitar museus e exposições ou frequentar peças de teatro — e que, nesses ambientes, comportam-se de maneira civilizada. Mas que, diante de um campo de futebol, transformam-se em pessoas intolerantes, agressivas, beligerantes e irracionais.

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