Qual é a garantia da CBF e dos clubes de que usar a base vai melhorar os times de cima? Nenhuma. Até porque, os melhores jogadores formados nas categorias inferiores são rapidamente vendidos para a Europa, onde não há restrições de estrangeiros ou elas são pequenas. Parece óbvio que uma liga só é mais forte e atraente porque tem os melhores atletas nela. A movimentação da CBF vai na contramão disso. É uma visão míope, embora também entenda que a peneira da base vai ter de ser melhor e mais fina. Jogador ruim, aqueles para compor elenco, vão desistir da carreira. Os clubes não poderão investir nesses garotos que não vão dar em nada. o jogador vai precisar mostrar alguma coisa diferente para continuar.
Hoje, a política de formação dos clubes brasileiros é trabalhar com quantidade na intenção de acertar a mão em dois ou três por temporada. Esses meninos que se destacam sobem ao time principal e são colocados na vitrine e vendidos. O Palmeiras faz isso desde que a presidente Leila Pereira assumiu o comando do clube, cinco anos atrás. Pelo menos um desses garotos extraordinários é vendido para fechar a conta do ano. Não há nada de errado nisso, mas a manobra vai na contramão dos argumentos da CBF, que as bases serão mais usadas. Na verdade, o jogador bom será mais usado. E sabemos que nem todos são bons.

Se a peneira não foi fina, os clubes vão gastar horrores com a base e continuarão a ter jogadores ruins. Isso, claro, vai enfraquecer o futebol brasileiro. Ou seja, a CBF trabalha para deixar o seu produto pior. Porque se Flamengo e Palmeiras encantam na temporada, é porque esses dois times têm atletas estrangeiros em suas fileiras, muito mais de cinco, como a CBF quer.
Aprender com os estrangeiros
A entidade também olha apenas para os atletas sul-americanos e não leva em conta a possibilidade de europeus atuarem no Brasil, como o Corinthians tem o holandês Memphis Depay. O mesmo argumento, por exemplo, não vale para a defesa do mercado brasileiro sobre os treinadores. Uma legião de técnicos estrangeiros está tomando conta do futebol nacional porque hoje eles são melhores. Mas o caminho não é mandá-los para fora do Brasil. É aprender com eles e fazer uma safra melhor. Os clubes e a CBF, portanto, nadam contra a correnteza.

Há ainda um terceiro fator que deveria ser levado em consideração: a seleção brasileira. Não há garantias também de que o Brasil será melhor com menos estrangeiros atuando no país. O uso dos atletas vindos de fora em nada impede que os clubes descubram novos garotos em todas as posições. Isso é um argumento equivocado para quem se apega a ele. A seleção brasileira foi para a Copa do Mundo de 2026 sem bons laterais ou com jogadores de aposta para as posições e isso não tem nada a ver com os estrangeiros no Brasil.
Qual é a lógica?
Nem mesmo a lógica dos clubes para tomar essa decisão (de reduzir o número de estrangeiros no país) é fácil de ser entendida. Porque eles gastam menos quando contratam na América do Sul. E trazem bons jogadores. O Flamengo faz esse trabalho muito bem, com um olhar clínico e apostas certeiras. Nem todas, é verdade. O uruguaio Arrascaeta é o maior exemplo disso. Mas o mérito é do Cruzeiro, de onde ele veio antes de vestir a camisa do clube carioca.
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Por fim, é preciso saber se a torcida brasileira está preparada para receber o garoto no time principal. O São Paulo teve muitas dificuldades com isso. O mesmo aconteceu com o Fluminense, O próprio Palmeiras dá muitas chances e espaço aos “miúdos” de Abel e nada acontece. Portanto, há muitas questões para serem discutidas e nenhuma garantia de que o futebol brasileiro vai melhorar fechando suas portas para os estrangeiros. Mas talvez o argumento mais importante seja o fato de proibir estrangeiros de trabalhar no Brasil. Ou reduzir o seu número nos times brasileiros.





