O Brasil que saiu da Copa do Mundo de 2026 pela porta dos fundos contra a Noruega começa a ser reconstruído por Carlo Ancelotti neste semana, depois de broncas e críticas da torcida brasileira na sequência do Mundial vencido pela Espanha. A primeira mudança aparece onde a seleção sempre foi cobrada para fazer diferença: no ataque.
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Na derrota por 2 a 1 nas oitavas de final diante dos noruegueses liderados por Haaland, o quarteto ofensivo era formado por Rayan, Matheus Cunha, Gabriel Martinelli e Vinicius Júnior. Agora, no primeiro amistoso pós-Mundial, contra a Austrália, nesta sexta-feira, a partir das 7h da manhã (de Brasília), o técnico italiano aposta em Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini. A média de idade baixou um pouco, de 24,2 para 23,5, mas o jeito de atuar é o mesmo, com dois pontas (Estevão e Vini) e um centroavante (Endrick), com um quarto homem de movimentação (Raphinha).

A comparação mostra mais do que uma simples troca de jogadores. Contra a Noruega, Ancelotti montou uma equipe que tinha Martinelli atuando mais por dentro, Matheus Cunha participando da construção e Rayan ocupando uma faixa mais avançada, enquanto Vini permanecia como principal ameaça pelo lado esquerdo. Era um ataque que precisava alternar posições e buscar espaços diante de uma Noruega que conseguiu controlar boa parte do jogo. O Brasil foi eliminado e voltou para casa mais cedo, ainda nas oitavas.
Quarteto veloz e driblador
Na Austrália, a ideia é um pouco diferente. Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini formam um quarteto muito mais associado à velocidade, ao drible e ao ataque ao espaço. Não significa que Ancelotti tenha abandonado o trabalho anterior, mas o treinador passou a ter à disposição uma combinação que se aproxima mais daquilo que ele próprio defende: um Brasil vertical, capaz de acelerar a partida e explorar as características individuais de seus atacantes. Com esse ataque, o drible está liberado. O próprio italiano explicou que não pretende transformar a seleção em uma equipe de posse de bola por obrigação.
Ancelotti entende que não adianta copiar o modelo de outras grandes seleções do país se os jogadores brasileiros têm características diferentes. Com Vini, Raphinha, Estêvão e Endrick, a tendência é procurar mais profundidade, transição rápida e situações de um contra um. O treinador já afirmou que o estilo precisa estar relacionado às características dos atletas. A nova formação, portanto, é também uma tentativa de fazer o Brasil jogar de acordo com aquilo que tem de melhor. São todos bons jogadores.

Mas existe uma cobrança que nenhum esquema consegue esconder: o Brasil não conquista uma Copa do Mundo desde 2002. São seis edições sem levantar a taça, e a eliminação diante da Noruega aumentou a sensação de que a seleção precisa encontrar respostas diferentes. O problema não é apenas escolher entre um 4-2-4 ou um 4-3-3, mas construir uma equipe capaz de competir contra adversários fortes e sempre candidatos a ganhar o Mundial. O Brasil é respeitado, mas não assusta mais.
Copa América de 2028
Ancelotti parece ter entendido que o próximo ciclo de quatro anos, quando acaba o seu contrato, precisa ser mais longo e menos imediatista. Depois da Copa, o treinador falou em observar jovens, avaliar novos talentos e construir um grupo pensando na Copa América de 2028 e na Copa do Mundo de 2030. Para os amistosos contra Austrália e Índia, ele convocou oito jogadores que ainda não haviam estreado pela seleção. É uma mudança de geração que começa a aparecer nas escolhas ofensivas.
A nova escalação revela uma tentativa de equilibrar experiência e juventude. Vini e Raphinha carregam rodagem internacional, enquanto Estêvão e Endrick representam uma geração que chega com enorme expectativa. O quarteto ainda precisa provar que consegue funcionar como time, mas sem transformar a seleção em uma equipe dependente de jogadas individuais. Ancelotti terá de encontrar o ponto entre liberdade para os atacantes e compromisso defensivo — algo que ele próprio já apontou como fundamental para liberar a qualidade ofensiva.
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A derrota para a Noruega deixou uma lição difícil de ignorar: talento individual não basta. O torcedor cobra envolvimento, pegada, sangue nos olhos. O novo Brasil, sem Neymar pela primeira vez desde 2014, precisa ser mais competitivo, intenso e claro sobre a maneira como quer jogar. O quarteto que começa contra a Austrália é uma primeira tentativa de resposta. Não é ainda o time da Copa de 2030, mas pode ser o primeiro capítulo de uma mudança necessária. Afinal, depois de tanto tempo sem uma Copa, Ancelotti não terá apenas quatro anos para preparar uma seleção: terá quatro anos para convencer o país de que o próximo Brasil pode voltar a disputar o mundo pelo topo. Por ora, poucos acreditam nisso.





