A decisão do governo federal de proibir a operação das bets no Brasil abre uma nova fase para o futebol brasileiro. A Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira, dia 25, estabelece que as empresas terão de deixar o mercado, enquanto contratos de publicidade e patrocínio entram em contagem regressiva. O prazo estabelecido para a retirada das plataformas e das campanhas é 5 de outubro, às 23h59, colocando clubes, campeonatos e empresas de comunicação diante de uma mudança que há poucas semanas parecia improvável.
O impacto financeiro aparece primeiro nas camisas. Levantamento com base nos balanços de 2025 aponta que as casas de apostas colocaram R$ 1,14 bilhão nos patrocínios dos clubes da Série A. O valor correspondeu a cerca de 7,9% das receitas totais das equipes naquele ano. Em 2026, 14 dos 20 clubes da elite têm ou tiveram uma empresa do setor como patrocinadora máster, enquanto o dinheiro das bets também chegou a competições, placas de campo, transmissões e propriedades comerciais dos estádios. As bets estão por todas as partes no futebol. O Grêmio assinou um contrato nesta semana. As bets ficaram no ano passado com R$ 37 bilhões de lucro, para um faturamento bruto de R$ 220 bi.

A dimensão do problema fica mais evidente quando se observa a concentração desses contratos. Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Vasco e outros grandes clubes construíram acordos milionários com empresas do setor. O Flamengo, por exemplo, possui o maior contrato individual, de R$ 268,5 milhões por ano com a Betano. A saída dessas empresas não representa apenas a troca de uma marca na camisa: significa encontrar novos compradores para um espaço que se tornou uma das principais propriedades comerciais do futebol brasileiro. Mas há também o problema das camisas dos times confeccionadas com as marcas das casas de apostas. Elas não poderão ser usadas.
As bets tomaram o futebol
O efeito também chega ao calendário e às competições nacionais. A Betano é patrocinadora do Brasileirão e da Copa do Brasil, inclusive com presença no nome das disputas, além de comprar espaços publicitários durante as transmissões. Tudo vai sumir no último minuto do dia 5. Há ainda casos de arenas que incorporaram as marcas de bets ao próprio nome, como a Casa de Apostas Arena Fonte Nova, em Salvador. O dinheiro das bets, portanto, não está concentrado apenas nos uniformes: ele se espalhou por diferentes pontos da indústria do futebol.
Os clubes já haviam reagido antes da assinatura da MP. Em setembro, algumas das principais equipes do país divulgaram manifesto defendendo a manutenção de um mercado regulado e alertando para os efeitos econômicos de uma proibição. As empresas de apostas, por sua vez, notificaram os clubes sobre a possibilidade de romper contratos caso a operação fosse proibida. Alguns times começaram a procurar novos parceiros comerciais antes mesmo da publicação da medida. Vale ressaltar que os patrocínios giram emn torno de 10% a 20% das receitas anuais dos clubes da Série A.
Clubes devem R$ 14,3 bi
A crise chega em um momento particularmente delicado. As equipes da Série A acumulavam R$ 14,3 bilhões em endividamento em 2025, segundo fontes oficiais e estudos nesse sentido, enquanto os contratos com as bets representavam uma parcela relevante da receita comercial. Nos últimos dias, os clubes também passaram a discutir com o governo uma linha de crédito para reorganizar as dívidas diante do risco de perda dessa fonte de receita. A proposta em discussão, que não é nova, prevê participação do BNDES e ainda não tem critérios definitivos.
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O futebol brasileiro entra, assim, em uma espécie de teste de substituição. A questão já não é apenas quanto dinheiro as bets colocaram no esporte, mas quem ocupará o espaço deixado por elas. O mercado terá de encontrar novas marcas, novos investidores e novas formas de monetizar as propriedades que foram valorizadas pela presença das casas de apostas. A medida do governo encerra um ciclo de expansão acelerada das bets no futebol brasileiro e abre outro, ainda sem desenho definido, em que clubes e competições terão de descobrir quanto vale sua camisa sem o dinheiro que, até agora, ajudou a sustentá-la.





