Por Savério Orlando
Na reunião que promoveu no início deste mês com dirigentes de clubes e federações, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu o pontapé inicial para uma nova tentativa de consolidar uma única Liga do Futebol Brasileiro, dispondo-se a servir como mediadora do processo a ser conjuntamente concebido e deliberado exclusivamente pelos clubes. Com manifesta simbologia, alijou das conversas as ligas e os seus executivos, consultorias, assessorias financeiras e jurídicas, uma vasta massa de especialistas e profissionais bem testados, mas também de gurus, neófitos e astutos, que atualmente pairam sobre a indústria do futebol.
Entre somente os agentes diretos, as mensagens passadas dizem respeito à necessidade de entendimento e coesão para maximizar o negócio para além dos aspectos econômicos e de uma urgente tarefa de fazer a revisão do produto. Uma revisão da organização dos direitos comerciais do futebol brasileiro. Foi proposto um cronograma de caráter participativo com sugestão de providências e de temas para a discussão nos próximos meses e uma sinalização forte de que o comando decisório caberá unicamente aos clubes, à quem a CBF rogou que deixassem de se dedicar somente à discussão de mais valia, como tem sido a ordem do dia há quase cinco anos. Ou seja: que parem de pensar unicamente no dinheiro que cada um vai receber e olhem para o produto.

É preciso colocar o produto no centro das atenções. Ele, o futebol, é o coração do negócio e tem de ser mais bem tratado para que seja cada vez mais visto e vendável (mais dinheiro) e não negligenciado como vem sendo apesar dos incrementos crescentes observados no mercado do futebol nos últimos anos. Há certo simplismo coletivo em considerar que o Brasil tem um dos melhores produtos esportivos nas mãos por causa de uma acirrada e enorme disputa, argumento que foi enfraquecido com o histórico das últimas dez edições do Brasileirão, das quais sete foram divididas entre duas equipes apenas, com alguns poucos intrusos.
Revisão do produto
Esse mesmo reducionismo também sugere que, mediante alguns ajustes, o país pode ter um produto em termos comparativos equivalentes ao das melhores ligas europeias, sempre com a Premier League no horizonte. Contudo, a demanda por aperfeiçoamento é na prática bem maior, de teor estruturante e complexo. Concorrem em desfavor do “produto” questões de natureza técnica, estéticas e comportamentais, responsáveis diretas pela perda do tempo de jogo e diminuição da atratividade, comprometendo a manutenção ou ampliação da base consumidora.
Quando se fala em questão estética, leia-se como a padronização mínima das estruturas físicas, incluindo a apresentação dos gramados, e planos para uma maior afluência de torcedores, elementos que contribuirão para a plasticidade que envolve o aspecto das transmissões, maior veículo de receitas para os atores do espetáculo. O debate ainda é embrionário, mas atualmente as questões comportamentais, tais como insubordinações e embustes, já começam a ser citadas e rechaçadas por narradores e comentaristas, igualmente em programas esportivos e nas redes sociais.
Imagine lá fora…
Não dá mais para normalizar atitudes reprováveis e reiteradas como as reclamações ostensivas aos árbitros a cada falta, rodinha com cinco minutos de jogo parado, atleta que toma um ponta pé e cai rolando com a mão no rosto… Se os próprios brasileiros já não toleram mais esse tipo de comportamento, o que se dirá do consumidor estrangeiro em captação? Claro que não faltam os defensores da tradição com suas boas razões, os filósofos da bola e suas explicações sociais e culturais, mas os excessos têm de ser enfrentados, o que não será fácil, pois envolverá tempo e uma quase catequese desde as categorias de base. É trabalho de médio prazo.

Por fim, não menos importante, o ponto nevrálgico da arbitragem, hoje entendido pelo conjunto campo e cabine, precisa melhorar. O trabalho entregue é sofrível, o VAR à brasileira opera com equipamento obsoleto (ainda traçando linhas) e uma irritante falta de critério, enquanto os árbitros são seres errantes levados por hesitação e elevada pressão. Aqui o investimento em tecnologia e atualização é premente com a adoção imediata de sistemas mais eficientes disponíveis. Pode-se pensar na profissionalização dos quadros de arbitragem, mas isso demanda mais esforço e empenho. Não pode ser mais apenas discurso de palanque ou figurinha repetida…
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Passou da hora de reconhecer que nosso produto não é tão bom como se imagina e que será preciso desenhar uma estratégia cronológica e consistente de revisão para que se tenha ao fim da jornada uma nova mercadoria, capaz de expandir o público interno e mostrar potencial for export, credenciando-se à disputa de novos mercados. É um imenso desafio.





