Leonardo de Sá
A negociação entre Corinthians e São Paulo pelo meia Alisson fracassou. Essas são as mais recentes informações do mercado da bola sobre o acordo complexo que envolvia duas equipes em situação financeira comprometida. O jogador era um pedido de Dorival para o alvinegro. Foi com o técnico que o atleta viveu seu melhor momento na carreira – a conquista da Copa do Brasil de 2023 – após um dos episódios mais complicados de sua vida: a depressão.
O tema ainda é tratado como tabu no meio esportivo, mas, talvez por isso mesmo, o caso de Alisson exemplifique a necessidade de se falar sobre o assunto. Um jogador que teve altos e baixos e que, ao realizar o sonho de atuar pelo clube, viveu também o seu pior pesadelo. Diante de todo o cenário, passou a temer justamente aquilo que dava “sentido” à própria existência.

Ida para o São Paulo
Em reportagem do UOL naquele ano, o jogador detalhou o que viveu desde a chegada ao São Paulo até o momento de seu ápice no clube — já com Dorival, em 2023. Alisson conta que estava na Disney, sentado na plateia de um espetáculo do Mickey, em um momento de lazer ao lado da família, quando recebeu o contrato para assinatura digital. E assim foi. Isso aconteceu em 2021.
Um ano depois daquele momento de euforia, o atleta viveria seu ponto mais baixo emocionalmente. Na final contra o Independiente del Valle, Alisson sentiu a coxa. O São Paulo perdeu a decisão da Sul-Americana naquele dia. O jogador relata que tentou voltar nas partidas seguintes, mas não conseguiu. Sabia da importância de estar jogando, sobretudo pelo momento do clube. Ainda assim, não havia alternativa: a lesão era séria.

Depressão
A lesão virou gatilho. A frustração pela final perdida, a cobrança interna pelo “voto de confiança” do clube e a incapacidade de se desligar do futebol nas férias formaram um cenário de desgaste contínuo. Alisson relata que a ansiedade passou a se manifestar em episódios físicos — arritmia, falta de ar, sensação de desespero —, inclusive em momentos cotidianos, como ao ver o próprio filho brincar com uma bola.
O afastamento foi orientado pelo departamento médico do Morumbi. Vieram o acompanhamento psicológico e, depois, psiquiátrico. O jogador se privou de consumir futebol por semanas. Disse que não se reconhecia, que “desligava” em conversas e que chegou a pensar em desistir da carreira. Em relato, admitiu que teve pensamentos autodestrutivos no período mais crítico. A rede de apoio — família, amigos e profissionais do clube — foi determinante para interromper a espiral. Aceitar ajuda, segundo ele, foi o primeiro passo para retomar o controle.
Depois dessa frustração recente na negociação com o Corinthians, Alisson foi reintegrado ao São Paulo. Já treinou e voltou a estar à disposição de Crespo. Aos 32 anos, está mais maduro. E confiante. Não tem mais nada a provar sobre do que é capaz no futebol. Sua transferência não deu certo porque o Corinthians não tinha o dinheiro necessário para a compra. Além do pagamento de R$ 1 milhão, havia gatilhos que poderiam levar a transação para R$ 3 milhões. O clube de Dorival desistiu.

O sorriso esconde a realidade
Aquela fase ficou para trás. Quem o via diariamente no CT encontrava o mesmo atleta sorridente de sempre. Mas por dentro, a situação era outra. O retorno ao grupo ocorreu de forma gradual e respeitando limites. A virada esportiva veio com Dorival Júnior. Em diálogo com a comissão, Alisson deixou a ponta, posição em que vinha jogando, e foi testado como segundo volante.
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A adaptação tática redefiniu seu papel dentro do time. E foi com Dorival, o que explica seu carinho com o treinador do Corinthians. De jogador de lado a peça de equilíbrio no meio, ganhou leitura de jogo, ocupação de espaço e se tornou um atleta combativo, demonstrando em campo o amor à camisa que a torcida tanto queria ver. Foi assim que se tornou elemento importante na campanha da conquista inédita da Copa do Brasil de 2023. Não como protagonista de manchetes, mas como engrenagem confiável de um time campeão. Internamente, o título teve peso simbólico pela travessia percorrida pelo atleta.

Saúde mental não é brincadeira
O caso de Alisson rompe, ainda que parcialmente, um silêncio histórico no futebol. Em um ambiente que naturaliza dor, pressão e exposição, admitir fragilidade costuma ser visto como risco de imagem. O relato do meia mostrou o contrário: reconhecer o problema é parte do tratamento. Clubes brasileiros passaram a estruturar departamentos de psicologia, mas o tema ainda enfrenta resistência cultural. Histórias como a dele ajudam a deslocar o debate do tabu para a prevenção. Nem todo sofrimento virá ao público; muitos permanecem invisíveis.
2025 e o peso de seguir
O ano de 2025 não foi dos mais brilhantes em números ou desempenho para Alisson. Oscilações fazem parte do jogo. Para quem já atravessou a sensação de perder o propósito, porém, a régua é outra. Voltar ao clube onde se tornou peça importante, competir em alto nível e sustentar a rotina já é, por si só, uma mostra de força. No futebol, o caso de Alisson reforça que o atleta é humano: possui diferentes facetas, sente, chora e sofre. O retorno ao São Paulo após a negociação frustrada com o Corinthians pode ser lido como mais uma oportunidade de provar que o futebol também é território de recomeços — como já foi para ele.





