É verdade que a liturgia do futebol permite licenças nas relações de trabalho que não caberiam em nenhum manual do mundo corporativo. Especialmente no ambiente do vestiário, onde jogadores e comissão técnica — superiores e subordinados — se relacionam a partir de um código próprio, moldado pela cultura do jogo, pela urgência do resultado e pela tensão permanente da competição.

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Ali, no espaço quase sagrado dos profissionais da bola, discussões acaloradas, tom de voz elevado, xingamentos, troca de insultos e até agressões físicas sempre fizeram parte dos usos e costumes da bola. Daí a máxima: o que acontece no vestiário fica no vestiário.

Fernando Diniz tem um jeito peculiar de conversar e cobrar seus jogadores do Vasco em campo / Vasco

O problema começa quando esse modus operandi transborda do espaço blindado e ganha a cena aberta, com captação de áudio e imagem, como ocorreu na noite de quinta-feira em Mirassol. À beira do campo, durante uma parada técnica, Fernando Diniz reuniu seus jogadores esperando-se, ali, ajustes táticos capazes de reverter um placar adverso.

Esculacho público

O que se viu, no entanto, foi um esculacho público. Numa linguagem própria e amplamente aceita no universo do futebol — é preciso dizer —, o treinador partiu para ofensas diretas, acusando atletas de omissão. Em meio à saraivada de impropérios, o português Nuno reagiu, dizendo que não havia feito nada que justificasse aquela reprimenda. A resposta veio carregada de fúria e ironia: “Você não está fazendo nada mesmo, nada! Vamos jogar, porra!”.

Em sua defesa, Fernando Diniz diz que trata com muito carinho os atletas do Vasco e tem respeito por eles / Vasco

É sabido que, no calor do jogo, diante de um resultado negativo, muitos treinadores exageram nas broncas. Ninguém imagina que, à beira do campo, o técnico vá chamar o jogador de lado e pedir com delicadeza que cumpra o plano de jogo. O futebol nunca funcionou assim. Ainda assim, cabe a pergunta incômoda: onde está o limite entre uma voz de comando firme — até agressiva — e a preservação de um mínimo de civilidade nas relações entre pessoas?

Os jogadores gostam disto?

Até que ponto jogadores reagem bem a cobranças feitas nesse tom, aos berros, com exposição pública, quase como se estivessem diante de um capataz? E, na via inversa, qual é o direito do atleta de reagir no mesmo tom quando não se reconhece culpado pelos erros apontados pelo chefe? Mais do que isso: esse tipo de postura, de fato, gera resposta esportiva positiva? Em Mirassol, ao menos, não funcionou. Mesmo após a bronca, o Vasco não reagiu e perdeu merecidamente, porque o adversário foi superior.

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Na defesa de sua postura, Diniz afirmou após o jogo que é assim mesmo e que os jogadores já sabem disso. Disse ainda que, fora do calor da partida, é carinhoso, respeitoso e próximo dos atletas no dia a dia: nos treinos, nas concentrações, nas palestras pré-jogo, quando a adrenalina não corre solta nas veias. Pode ser verdade. Mas também é verdade que não se trata de um episódio isolado. Anos atrás, no São Paulo, Diniz protagonizou uma humilhação pública ao chamar Tchê Tchê de “perninha”, “mascaradinho” e “ingrato”. Até hoje, o jogador admite que aquele momento o marcou negativamente e deixou cicatrizes em sua trajetória.

Esse método muda o jogo?

A história do esporte está cheia de exemplos de treinadores que recorreram à truculência como método. Há relatos quase lendários de técnicos russos, romenos e chineses que chegavam à agressão física na formação de ginastas de excelência. Durante muito tempo, resultados serviram como salvo-conduto para práticas que hoje soam, no mínimo, questionáveis.

Diniz e Rayan têm discussão em partida do Vasco: treinador se transforma à beira do gramado / Vasco

É nesse ponto que a discussão se impõe. Não se trata de demonizar Fernando Diniz nem de ignorar que o futebol tem sua própria linguagem, sua semiótica particular e seus códigos históricos. Trata-se de perguntar, com honestidade: esse modelo de liderança ainda faz sentido? Ele potencializa ou limita o desenvolvimento esportivo e humano de uma equipe? Em um jogo cada vez mais complexo, com atletas mais preparados técnica e emocionalmente, até onde a bronca pública constrói — e a partir de quando ela passa a destruir?

Estamos em 2026!!!! Talvez o futebol precise começar a debater isso com menos paixão e mais reflexão. Não para interditar o conflito, que é parte do jogo, mas para entender se, no grito, ainda está a melhor resposta.

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