Em dezembro de 1976, uma partida entrou para a história do Corinthians. Cerca de 70 mil torcedores do time paulista lotaram o Maracanã para assistir ao jogo contra o Fluminense no Maracanã pela semifinal do Campeonato Brasileiro. O episódio histórico ficou conhecido como “Invasão Corintiana”. A distância de 435 quilômetros entre São Paulo e o Rio de Janeiro não inibiram os torcedores de uma das extremidades da Dutra. Aquela partida aconteceu no dia 5 de dezembro. The Football traz uma entrevista com um dos seus personagens, Vaguinho, um dia depois do dia mais triste para os corintianos nesta temporada, quando foi eliminado em casa da Libertadores pelo Estudiantes.
O duelo de 1976 acabou empatado por 1 a 1 e a decisão foi para os pênaltis, como o torcedor em Itaquera esperava que fosse acontecer nesta quarta-feira. O goleiro Tobias defendeu duas cobranças, uma delas repetida, e o time paulista converteu com segurança para vencer por 4 a 1 do rival carioca. Debaixo de muita chuva, o alvinegro confirmou sua classificação para a decisão contra o Internacional. “Depois de 50 anos, ainda estamos falando desse assunto”, relembra o ex-ponta-direita Wagno de Freitas, o Vaguinho.

Revelado pelo Democrata-MG, o atacante teve destaque no Atlético-MG até ser comprado pelo Corinthians em agosto de 1971. Ele permaneceu no Parque São Jorge por dez anos. Suas marcas são expressivas: 551 partidas e 110 gols. “Se eu tivesse jogado todas que fiquei fora, meus números seriam ainda maiores”, explica. O futebol naquela época ainda flertava com boa dose de amadorismo.
Camisa comemorativa
Neste ano, a Invasão completa 50 anos. Meio século e nenhum corintiano se esqueceu daquele dia. Em homenagem a esse evento histórico, a Nike lançou um uniforme especial igual ao usado pela equipe em 1976. Para o lançamento oficial, jogadores do elenco comandado por Fernando Diniz posaram para fotos dentro de um ônibus antigo da década de 1970, simulando a viagem que dezenas de torcedores fizeram pela Via Dutra.
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“Foi algo histórico que não irá acontecer nunca mais”, opina Vaguinho. Ele formou o trio de ataque titular do Corinthians naquela campanha ao lado do centroavante Geraldão e do ponta-esquerda Romeu Cambalhota. Atuou, inclusive, na final contra o Internacional no Beira-Rio. O Colorado venceu a partida por 2 a 0 e ficou com o título. The Football conversou com Vaguinho sobre a Invasão Corintiana e sobre o momento da equipe de Parque São Jorge na temporada de 2026.
The Football: O que o senhor achou dessa camisa comemorativa que o Corinthians lançou sobre a invasão de 1976?
Vaguinho: Eu achei muito legal. Foi algo histórico que não vai acontecer nunca mais. Hoje, os estádios não têm a capacidade que tinham antigamente e aquele deslocamento de torcedores foi algo incrível. O clube estava há muitos anos sem títulos (22 anos) e uma invasão como essa é uma coisa que somente um time como o Corinthians consegue fazer. Tem que celebrar mesmo.
O que representou aquela invasão para os jogadores?
Naquela época, o Corinthians já vinha formando um time forte. Da equipe que tinha sido vice-campeã em 1974 vários, o Rivellino saiu. Daquele ano, ficou eu, Zé Maria, Ademir Gonçalves, Zé Eduardo e Wladimir. A maioria daquele elenco foi chegando aos poucos de outros clubes. Então, a gente sentia que alguma conquista ia acontecer logo. O time vinha se acertando e chegamos com mais força em 1977.
O que representou aquela conquista do Campeonato Paulista de 1977?
Foi a ressurreição do Corinthians. Esse título de 1977 abriu a porta para tudo no clube. A Democracia Corintiana não existiria sem aquele título, eles não fariam nada. Você viu a comoção do título da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha? Multiplica por 100 vezes que é a torcida do Corinthians naquele ano. Esse é um time completamente imprevisível. O que falta ao Corinthians é organização. Digo, o Corinthians de hoje. Se tivesse 50% de organização do Barcelona ou do Real Madrid, seria imbatível.
Como o senhor vê o atual momento do Corinthians com problemas políticos e salários atrasados?
Olha, difícil de julgar. Eu já passei por isso: salário atrasado. Na nossa época, nos anos 1960 e 1970, isso já acontecia no clube. O futebol brasileiro nunca foi organizado, nunca teve organização de nada. Quando joguei, não tinha Fundo de Garantia. Então, a parte de direção dos clubes sempre foi uma baderna. Como esse rapaz que joga no São Paulo, o Luciano, disse que nunca recebeu o salário em dia. É a realidade hoje. Imagina então na nossa época. Nem premiação a gente recebia em dinheiro, era depositado dias depois. Alguns presidentes levavam dinheiro antes do jogo para motivar o atleta. Dinheiro na mão. Em clássico, levavam dinheiro na concentração.

O que o senhor achou da eliminação do Corinthians pelo Estudiantes na Libertadores nesta quarta, da forma como aconteceu?
Faltou esquema tático. O Memphis Depay não pode jogar de centroavante, tinha de colocar o Gui Negão e sacar um dos dois volantes para ter um jogador de mais referência na frente. O Pedro Raul é melhor nem comentar. Ele não tem qualidade nem para ser banco de time grande. Mas aconteceu essa eliminação e muita coisa tem de mudar no Corinthians.
O Corinthians tem muitos problemas políticos. Qual seria a solução? A SAF?
O grande problema é tirar esses conselheiros. O Palmeiras conseguiu mudar o estatuto. Não adianta ser SAF e ter esse grupo de dirigentes. Sem os conselheiros, você não muda o estatuto. É complicadíssimo, esses gastos de presidentes estão acima de qualquer coisa. Saiu que ele gasta R$ 700, R$ 800 mil com segurança. Todo mundo tira uma verba do clube. A solução é criar um salário para o presidente: aí ele gasta coisa pessoal desse lugar.
O que o Corinthians representou na carreira do senhor?
Tudo. Tudo mesmo. Eu fui um jogador diferenciado. Bastante jovem, eu já estava na seleção brasileira e sempre fui acima da média. Sempre competi por cima e meu passe custou caro para o Corinthians porque eu era diferenciado. Antigamente, o cara tinha de jogar muito para ganhar acima da média. Naquela década de 1970, fui o que mais fez jogos, o que mais fez gols e deu assistências no Corinthians. Foi algo marcante.





