O Corinthians vive hoje um dos momentos mais críticos de sua história recente. Uma crise política que não é apenas conjuntural, mas estrutural, que escancara as fragilidades de um modelo de gestão, que, infelizmente, é regra — e não exceção — no futebol brasileiro. É, de fato, uma vergonha.

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O clube, que tem receita anual superior a R$ 1 bilhão está, paradoxalmente, com o caixa sufocado, pressionado por dívidas que parecem impagáveis. A engenharia financeira do Corinthians, apenas a título de sobrevivência, dependente de acordos, renegociações e manobras que empurram problemas para o futuro.

Corinthians, de Depay, precisa de novos caminhos para sair da escuridão que tomou conta da sua gestão / Corinthians

Alerta: este é um retrato que não pertence só ao Corinthians, mas a boa parte dos grandes clubes do país, onde receitas bilionárias convivem com gestões amadoras, personalistas e sistemas políticos que beiram o oligárquico.

Estrutura política ultrapassada

O episódio recente no Parque São Jorge, em que membros da Gaviões da Fiel e outras torcidas fizeram um protesto simbólico “fechando” as portas do clube por má administração, é mais do que um ato isolado de revolta. É a materialização de um esgotamento. A invasão, que deve ser condenada nos seus excessos e ilegalidades, traz, no entanto, uma mensagem que não pode ser ignorada: a estrutura política dos clubes está ultrapassada. Pra não dizer falida.

O pedido da torcida organizada é simples na essência, mas disruptivo na prática: uma revisão profunda do estatuto, que permita a ampliação da participação, do debate e da democracia interna. Hoje, quem decide os rumos do Corinthians — e de tantos outros clubes — são cerca de 4 mil sócios do quadro social. Aquelas pessoas que frequentam piscinas, quadras, bares e reuniões para organizar a festa junina.

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Só que o Corinthians não é só isso. O Corinthians é também — e, sobretudo — um time de futebol que representa 35 milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Esses fiéis estão presos à seita alvinegra, mas não têm voz nas decisões que interferem no presente e no futuro da associação. Como já disse algum filósofo, todo time tem uma torcida, mas só uma torcida tem um time.

Parque são Jorge: clube corintiano sofreu uma segunda invasão nesta terça-feira de torcedores insatisfeitos / Corinthians

Esse modelo estatutário vigente não é apenas excludente. Ele é, sobretudo, ineficiente. Pequenos colégios eleitorais produzem ambientes políticos tóxicos, marcados por baixa renovação, escasso debate e predominância de caciques e grupos que se sucedem, muitas vezes, mais por acordos de bastidor do que por qualquer projeto de gestão.

A torcida quer voz nas decisões

Essa distorção gera um ambiente perfeito para o surgimento de currais eleitorais, acordos de bastidores, revezamento de grupos que se perpetuam no poder, e uma dinâmica que privilegia interesses privados em detrimento do bem coletivo do clube e da sua torcida. Por isso é preciso entender que o movimento dos Gaviões não está defendendo uma facção, um grupo político ou um nome. Está fazendo um chamado à reflexão: por que quem financia, acompanha e sustenta o futebol — que é o verdadeiro motor do clube — não tem voz nas decisões?

O debate sobre o direito a voto dos sócios-torcedores, sobre a separação entre clube social e departamento de futebol, e sobre modelos mais modernos e profissionais de gestão, não é novo. Mas nunca foi tão urgente. Ignorá-lo é caminhar, passo a passo, rumo ao colapso. Porque não há mais espaço, nem tempo, para clubes serem administrados como feudos familiares ou pequenos cartórios de interesses pessoais.

A crise é do futebol brasileiro

Seja no Corinthians, seja em qualquer outro gigante do futebol brasileiro, a lição está posta: ou se modernizam ou continuarão reféns de uma estrutura que produz crise atrás de crise. Portanto, a crise do Corinthians não é apenas um problema do Corinthians. É um sintoma de um colapso anunciado. E se não for encarada como um ponto de inflexão, será apenas o prenúncio do que outros clubes inevitavelmente viverão em breve. O tempo da mudança não é amanhã. Era ontem.

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