Nem nas férias o Corinthians tem paz. Enquanto os jogadores aproveitam os últimos dias de descanso, o clube é sacudido por mais um capítulo da sua interminável crise administrativa. Desta vez, o protagonista da novela é ninguém menos que Memphis Depay. Contratado como estrela internacional, símbolo de um projeto ambicioso e motor técnico da equipe, o atacante holandês agora ameaça não se reapresentar, em protesto contra o não pagamento de valores previstos em contrato.

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Depay cobra R$ 6,1 milhões do Corinthians — relativos a premiação pelo título do Paulistão e direitos de imagem. O clube foi notificado ainda em maio, quando Augusto Melo era presidente. Desde então, silêncio. Diante da ausência de resposta, uma nova notificação foi enviada nesta semana, com um ultimato: se o pagamento não for feito, o jogador pode simplesmente se recusar a cumprir suas obrigações profissionais.

Memphis Depay cobra R$ 6,1 milhões do Corinthians para voltar a vestir a camisa do clube / Corinthians

A bomba tem um potencial devastador. Em termos financeiros, expõe mais uma vez o descontrole e a falta de responsabilidade com compromissos básicos. Em termos esportivos, é um abalo profundo no elenco: Memphis não é apenas mais um. Foi peça-chave na campanha que salvou o clube do rebaixamento em 2024 e é hoje, com sobras, o nome mais importante do plantel.

Memphis tem suas razões

Sua ausência fragiliza o time às vésperas de um segundo semestre que ainda oferece oportunidades de recuperação: Copa do Brasil, Brasileirão, vaga na Libertadores — todas metas que podem ajudar o clube a reequilibrar minimamente as contas e reconstruir um pouco de autoestima.

É claro que Memphis tem razão. Todo trabalhador tem o direito de receber o que está em contrato. Mas o episódio também serve para refletir sobre o papel dos ídolos e dos protagonistas em momentos de crise. Depay, com sua experiência internacional e sua visibilidade global, poderia estar na linha de frente de um esforço coletivo para pressionar a diretoria, proteger os colegas e construir pontes em vez de abrir rachaduras.

Memphis faz o caminho inverso do ídolo: olha apenas para o seu próprio umbigo e se distancia da torcida / Corinthians

Ao se colocar como exceção, ainda que por razões legítimas, ele se distancia do grupo e da torcida — justamente o que mais o acolheu desde sua chegada. Seu protesto teria muito relevância se ele brigasse também para cobrar a dívida do clube com os outros jogadores, que também não receberam a premiação prometida. Por ora, Memphis olha apenas para o seu próprio umbigo.

Corinthians renova com a Nike

O cenário é tão emblemático quanto contraditório. Nesta mesma semana em que Depay cobra dívidas e ameaça ir embora, o Corinthians anuncia a renovação de contrato com a Nike por mais dez anos. Um acordo que pode render R$ 1,3 bilhão ao clube. Um feito e tanto, que só reafirma a grandeza da marca Corinthians. Uma grandeza que resiste, apesar da incompetência que tomou conta da sua gestão.

Se o clube estivesse saudável financeiramente, estável politicamente e competitivo em campo, imagine o que seria possível arrecadar e construir a partir desse contrato. Mas não. O Corinthians está entregue à desordem, à falta de planejamento e à política do improviso. O resultado é esse: ídolos frustrados, elenco dividido, torcida desanimada e um futuro cada vez mais nebuloso.

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O caso Depay é mais um sintoma. Grave, urgente, mas não isolado. É só mais um grão de areia no imenso deserto de dívidas, promessas não cumpridas e reputação deteriorada que hoje define o Corinthians. O clube que já foi sinônimo de povo, paixão e poder, anda à deriva — e ameaça afundar junto com seus melhores nomes.

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