Carlo Ancelotti vai, aos poucos, sendo apresentado à realidade do futebol brasileiro. Ainda vive o clima de lua de mel de um casamento recente, protegido num núcleo cercado de excelência e facilidades. Mas começa a experimentar algo além da bolha de glamour em que orbitam a seleção, a CBF e os jogadores que atuam na Europa. A cada rodada de Brasileirão que assiste, o italiano se dá conta de que a máquina que produziu um pentacampeão do mundo não gira tão bem quanto poderia parecer à distância.
Na coletiva desta quarta-feira, véspera do penúltimo confronto das Eliminatórias com o Chile, no Maracanã, Ancelotti foi provocado a avaliar o futebol brasileiro para além do recorte privilegiado da seleção. Educado e inteligente, mediu as palavras, preferindo realçar virtudes antes de apontar fragilidades.

Destacou o vínculo único entre torcedor e clube, presente em cada capital por onde passou nas suas observações. “O Brasil é um país que vive o futebol com paixão”, sublinhou, numa obviedade que por aqui já não soa tão óbvia assim. Também elogiou a organização da CBF e o nível das competições nacionais, cumprindo o ritual diplomático de quem sabe que a cadeira que ocupa exige tato político.
Os melhores jogadores estão fora do país
Mas a franqueza, ainda que embalada em cortesia, também apareceu. O treinador reconheceu que a qualidade técnica dos jogos que acompanhou poderia ser melhor. E arriscou uma explicação. “A maioria dos bons jogadores atua fora do país e isso pesa. O Brasil tem muitos bons jogadores lá fora. Acreditamos que temos 70 jogadores que podem estar na Copa.” Nas entrelinhas, deixou claro o que todo mundo sabe: o êxodo de talentos para a Europa cobra seu preço no produto que sobra para o torcedor consumir aqui.
É aí que reside a importância de um técnico do tamanho de Ancelotti. O esvaziamento técnico do futebol nacional não pode ser lido apenas como uma corrida natural atrás de salários maiores e contratos mais estáveis em outros mercados. Ele também decorre da lógica perversa que fechou as portas da seleção aos jogadores que permanecem no país. Não por acaso, a pressa em partir muitas vezes antecede até a maturidade profissional — e tantos jovens acabam mal orientados, trocando minutos em campo no Brasil por apostas incertas no exterior.

Falta formar um time
Ancelotti, com seu peso e histórico, tem a oportunidade de reverter esse fluxo. Pode sinalizar que jogar no Brasil não significa desaparecer do radar da seleção. Esse gesto simples, mas de grande impacto, ajudaria a valorizar a mão de obra local, prolongar a permanência de talentos nos clubes nacionais e, no fim, fortalecer a própria equipe que ele comanda.
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O Brasil continuará sendo um manancial inesgotável de jogadores. O que falta é transformar esse potencial em plano de carreira, em projeto coletivo que permita que menos talentos se percam pelo caminho. E se há alguém capaz de fazer o futebol brasileiro evoluir além da contabilidade de títulos da seleção, é o mesmo treinador que um dia reinventou o Milan, o Real Madrid e tantos outros gigantes. Agora, diante do maior celeiro de craques do planeta, o desafio de Carlo Ancelotti pode ser ainda maior.





