A derrota emblemática para o Corinthians, nesta quinta-feira, apenas confirmou o que a temporada inteira já insinuava: o São Paulo naufragou. O clássico caminhava para aquele empate morno entre duas equipes que se alternam em erros mais do que em virtudes, mas o desfecho acabou servindo como uma síntese brutal de um ano marcado pela instabilidade, pela incapacidade de reação e pela sensação permanente de que o clube passou 2025 inteiro procurando algo que jamais encontrou.
O resultado expôs, de novo, feridas internas que deixam de ser cochichos para se tornarem desgaste político real. Entre velhos cardeais, cresce o incômodo com a gestão de Julio Casares e com o que eles consideram um processo de deterioração silenciosa dos departamentos que orbitam o futebol profissional. O alvo preferencial, nesta reta final, é o setor de saúde — antes referência, agora um ponto de interrogação que já não cabe mais esconder.

Hernán Crespo voltou a se apoiar na mesma justificativa que repetiu ao longo do segundo semestre: os problemas médicos que desmontaram o elenco. O argumento é compreensível até certo ponto, mas o São Paulo se viu dependente, o ano inteiro, das ausências de Calleri, Lucas e Oscar para explicar atuações sofríveis, sobretudo nos clássicos. Os três principais jogadores do time praticamente não atuaram juntos, empurrando o treinador a improvisações de emergência e apostas instáveis para cobrir buracos que se multiplicavam.
Lucas Moura
Só que o caso de Lucas Moura ultrapassa o debate esportivo e escancara como o clube tratou — ou não tratou — suas questões físicas mais delicadas. O departamento médico, que já ocupou o topo da hierarquia nacional, passou 2025 sob suspeita devido a lesões reincidentes, diagnósticos que não se sustentaram e tratamentos que escapam do padrão de normalidade. Nada simboliza melhor esse colapso do que o episódio que explodiu na sexta-feira, quando o empresário de Lucas, Junior Pedroso, rompeu o silêncio para defender o atleta de forma contundente.

Pedroso fez questão de lembrar que o histórico de lesões de Lucas antes de voltar ao São Paulo era “baixíssimo”. Disse que os problemas deste ano não são musculares, mas traumas por impacto, e ressaltou que o próprio jogador tentou antecipar retornos, jogou com dor, recorreu a infiltrações — tudo para ajudar um time que desmoronava sem ele.
São Paulo na berlinda
E nesse ponto a discussão deixa o campo esportivo para entrar na seara da gestão: como um atleta desse nível, com esse peso, acaba empurrado a sucessivas tentativas de retorno que só agravaram a situação? Como a estrutura que deveria protegê-lo permitiu que ele se tornasse um símbolo da instabilidade que domina o clube?
A temporada do São Paulo fracassou não apenas porque o time perdeu jogos decisivos. Ela fracassou porque o clube perdeu o controle sobre seus próprios processos. Porque transformou problemas médicos em explicação automática, sem enfrentar a raiz das falhas. Porque permitiu que seus principais jogadores se tornassem reféns de diagnósticos confusos. E porque deixou que a política interna, até então escanteada, voltasse a circular com força justamente quando a equipe mais precisava de estabilidade.
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O ano termina deixando a sensação de que 2025 não foi um acidente, mas um retrato fiel de um São Paulo que se acostumou a conviver com o improviso, com a oscilação e com a ausência de convicção. A derrota no clássico não abriu uma ferida — apenas mostrou que ela nunca cicatrizou.





