As coisas mudam muito rapidamente no futebol, ao sabor dos ventos dos resultados. Bastou o Corinthians mudar a postura e melhorar o rendimento técnico nos três primeiros jogos sob o comando de Fernando Diniz para que o astral virasse da água para o vinho. O que parecia terra arrasada com Dorival Júnior — lembram do executivo Marcelo Paz dizendo que “o trabalho dele bateu no teto”? — transformou-se rapidamente em um oásis de calmaria e esperança. Três jogos, duas vitórias, um empate heroico, nenhum gol sofrido, quatro gols marcados, Rodrigo Garro redivivo… Eis que surge um novo encantamento.
A transformação é tão evidente que já se discute abertamente no clube a possibilidade de prescindir de Memphis Depay para a sequência da temporada após a Copa do Mundo — coincidindo com o fim de seu contrato. A ideia, que até pouco tempo soaria como heresia, começa a ganhar contornos de decisão racional, tanto do ponto de vista esportivo quanto financeiro.

Fernando Diniz encontrou, quase por acaso, uma solução interna. Kayke, antes encostado no elenco, virou aposta concreta para a vaga que era cadeira cativa de Depay ao lado de Yuri Alberto. O garoto entrou nas três partidas, respondeu bem, marcou na estreia da Libertadores e ganhou terreno na disputa com nomes como Vitinho, Dieguinho, Gui Negão e Kaio César. Ainda que seja cedo para decretar sua titularidade incontestável, o simples fato de ele hoje ser tratado como alternativa viável já muda completamente o eixo da discussão.
E não para por aí. Existe também a expectativa em torno de Jesse Lingard, contratado para ser protagonista, mas que ainda não conseguiu entregar o nível físico e competitivo exigido pelo futebol brasileiro. Sua adaptação, lenta até aqui, encontra justificativas naturais: novo país, nova cultura, novo modelo de jogo. Mas a comissão técnica aposta que o período de intertemporada durante a Copa será determinante para que ele, enfim, se aproxime do jogador que se imaginou ao contratá-lo.
Período de pausa para a Copa
Esse intervalo, aliás, é visto como crucial também para o próprio Fernando Diniz. Até aqui, sua atuação teve muito mais de bombeiro do que de construtor. Preservou as bases do trabalho deixado por Dorival, fez ajustes pontuais e reorganizou o ambiente. Ainda não houve tempo — nem espaço — para implementar de forma plena suas ideias e convicções. A pausa pode ser o ponto de inflexão entre o time que sobrevive e o time que passa, de fato, a jogar sob sua identidade.

Dentro desse contexto, o cenário que se abre permite, sim, imaginar um Corinthians sem Memphis Depay para o restante da temporada. E não apenas por uma questão tática. Há um conjunto de fatores que empurram o clube nessa direção.
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Fisicamente fragilizado mais uma vez, e em rota de colisão silenciosa com o departamento médico, Depay dá sinais claros de que sua prioridade está na Copa do Mundo. O tratamento acompanhado de perto pela seleção holandesa, a cautela extrema para evitar riscos e a disposição em ficar fora dos jogos do clube até estar 100% inteiro desenham um cenário delicado. Para o jogador, faz sentido. Para o clube, nem tanto.
Memphis perto do adeus
Afinal, que lógica há em sustentar um contrato de elite para um atleta que, neste momento, parece mais comprometido com o calendário da seleção do que com o do clube? Ao disputar a Copa, Depay também se reposiciona no mercado, reabre portas na Europa e Estados Unidos e amplia possibilidades fora do Brasil. É um jogo de interesses legítimos — mas assimétricos.
E, como pano de fundo de tudo isso, está a questão econômica. O Corinthians deve mais de R$ 40 milhões ao jogador dentro do contrato vigente. Não há caixa para quitar essa pendência com tranquilidade, muito menos margem para discutir uma renovação, ainda que em bases reduzidas. A dívida não é apenas um detalhe — é o centro do problema.
Outro timing
No fim das contas, o que antes parecia impensável começa a se desenhar como inevitável. Não por falta de qualidade de Memphis, mas porque o futebol, como a vida, é feito de timing. E o timing, hoje, aponta para uma separação que atende mais à realidade do clube do que ao peso do nome que um dia chegou para ser protagonista.





