Copa de 1974: Holanda, de Cruyff, encanta o mundo, mas Alemanha, de Beckembauer, festeja em casa

Na Alemanha Ocidental, time holandês apresenta uma nova e encantadora linguagem ao futebol, mas os alemães erguem a taça

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A Copa do Mundo de 1974 começou com o Brasil ainda sentado no trono como melhor futebol do planeta. Quatro anos antes, no México, a seleção brasileira havia transformado o tricampeonato em obra de arte coletiva. Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino, Jairzinho, Carlos Alberto e Clodoaldo, entre outros craques, não tinham apenas vencido uma Copa, eles tinham estabelecido um padrão quase injusto para qualquer equipe que viesse depois. A então Alemanha Ocidental recebeu a décima edição do Mundial sob esse fantasma: o mundo ainda olhava para o futebol brasileiro como referência. Mas o torneio terminaria contando outra história. A bola já girava em outra velocidade.

Tudo sobre a Copa do Mundo

A Copa de 1974 foi a primeira com a taça que hoje reconhecemos como símbolo máximo do futebol. A Jules Rimet, conquistada em definitivo pelo Brasil em 1970, ficara para trás. Era um detalhe de protocolo, mas também uma metáfora perfeita. A competição na Alemanha Ocidental marcou a abertura de uma nova era: mais física, mais tática, mais exigente. O talento ainda importava, claro. Mas passava a ser cobrado dentro de um sistema. Quem não entendesse isso ficaria preso à nostalgia.

Copa de 1974 Beckembauer levanta a taça de campeão do mundo
Franz Beckenbauer levanta a taça de campeão do mundo com a seleção da Alemanha / Divulgação Bayern de Munique

Carrossel holandês

Nesse cenário, a Holanda surgiu como a grande revelação estética e intelectual do torneio. Chamar aquela seleção apenas de vice-campeã é pouco. A equipe de Rinus Michels, comandada em campo por Johan Cruyff, ofereceu ao planeta uma nova maneira de enxergar o jogo. O chamado futebol total era uma ideia concreta: jogadores trocando posições, linhas subindo juntas, pressão coordenada, posse agressiva e ocupação racional dos espaços. A Holanda atacava defendendo e defendia atacando. O campo parecia menor para os adversários e maior para os holandeses.

Todos os olhos estavam fixos no camisa 14. Cruyff era o rosto, o cérebro e o acelerador dessa revolução. Não cabia em uma posição. Partia como centroavante, recuava como meia, abria como ponta, atraía marcações e criava superioridade onde antes havia congestionamento. Ao seu redor, Neeskens, Krol, Rep, Rensenbrink e Haan davam corpo a uma engrenagem sofisticada. Não era improviso disfarçado de modernidade. Era treinamento, convicção e coragem. A Holanda de 1974 encantou porque parecia saber o que faria antes de todos os outros, sem perder a sensação de liberdade.

Holanda surra Argentina e Brasil

A campanha holandesa reforçou esse impacto. O 4 a 0 sobre a Argentina teve força de demonstração pública. O 2 a 0 sobre o Brasil, na segunda fase, teve valor simbólico ainda maior. Ali, em Dortmund, não se decidiu apenas uma vaga na final. Decidiu-se quem representaria o imaginário do futebol dali em diante. A seleção brasileira, mesmo com a camisa do tricampeonato, deixou de ser o centro do encantamento. O laranja holandês ocupou esse lugar.

Copa de 1974
Capitão da seleção holandesa, Johan Cruyff comandou a revolução do futebol com a Laranja Mecânica / Divulgação

Copa de 1974 fica em casa

Mas a Copa do Mundo não premia apenas quem antecipa o futuro. Premia quem vence o jogo decisivo. E nesse ponto a Alemanha Ocidental mostrou a frieza de quem sabia o tamanho da oportunidade que tinha diante da própria torcida. A equipe de Helmut Schön talvez não fosse tão hipnótica quanto a Holanda, mas era madura, competitiva e acostumada a decisões. Sepp Maier dava segurança no gol. Beckenbauer organizava a defesa como líbero e líder. Na frente, Gerd Müller seguia sendo uma das definições mais precisas de artilheiro.

A final em Munique começou como se a história já estivesse escrita para Cruyff. A Holanda trocou passes desde a saída, Cruyff arrancou, sofreu pênalti e Neeskens marcou antes que a Alemanha tocasse na bola. Por alguns minutos, pareceu que a revolução holandesa seria também coroada pelo título. Só que a Alemanha não se desorganizou. Absorveu o golpe, cresceu no jogo e empatou em pênalti convertido por Breitner. Ainda no primeiro tempo, Müller recebeu na área, girou no pequeno espaço onde os artilheiros enxergam melhor do que qualquer um e virou a partida.

Admiração do mundo

O 2 a 1 ficou no placar até o fim. A Holanda saiu com a admiração do mundo. A Alemanha saiu com a taça. E a Copa ganhou uma de suas contradições mais ricas: a seleção que mais influenciou o futuro não foi campeã; a seleção campeã teve a grandeza de sobreviver ao impacto da equipe mais inovadora do torneio. Beckenbauer levantou o troféu porque a Alemanha entendeu que as finais não exigem deslumbramento. Exigem resistência, precisão e sangue frio.

E a seleção brasileira?

No meio dessa mudança de época estava o Brasil. E o Brasil de 1974 precisa ser analisado com justiça. Não era uma seleção sem qualidade. Tinha Leão, Luís Pereira, Marinho Chagas, Piazza, Rivellino, Jairzinho, Paulo César Caju, Leivinha, Valdomiro e Ademir da Guia. O problema é que carregava uma comparação impossível. O time de 1970 havia sido tão completo e tão luminoso que a equipe seguinte parecia condenada a responder por ausências. Onde estava Pelé? Onde estava Tostão? Quem faria o papel de Gérson? Quem daria a saída e a liderança de Carlos Alberto?

Zagallo, campeão como treinador no México, sabia que não tinha o mesmo material humano. Por isso, o Brasil de 1974 foi mais cauteloso, mais rígido e menos espontâneo. A estreia contra a Iugoslávia, em empate sem gols, acendeu o primeiro sinal. Outro 0 a 0 contra a Escócia aumentou o incômodo. A classificação veio com o 3 a 0 sobre o Zaire, mas sem o brilho esperado de uma seleção que entrava em campo com a memória recente do tricampeonato. O Brasil avançou, mas não convenceu. Sobreviveu mais pela camisa e pela estrutura defensiva do que pela capacidade de dominar os adversários.

Na segunda fase, houve melhora. A vitória por 1 a 0 sobre a Alemanha Oriental recolocou a seleção brasileira no caminho. O 2 a 1 contra a Argentina teve peso emocional, pela rivalidade e pelo contexto. Mas o confronto com a Holanda revelou o limite daquele Brasil. A derrota por 2 a 0 não foi apenas técnica. Foi conceitual. A Holanda jogava com fluidez, intensidade e coordenação. O Brasil parecia procurar uma versão de si mesmo que já não estava disponível. Rivellino ainda tinha talento para decidir, Jairzinho ainda impunha respeito, Luís Pereira ainda era zagueiro de classe. Mas o conjunto não carregava a mesma luz.

Copa de 1974 Na disputa por vaga à decisão, Cruyff na disputa com Jairzinho leva a melhor e coloca Holanda na final
Na disputa por vaga à decisão, Cruyff passa por Jairzinho e leva a melhor: Holanda na final / Divulgação

Engolida pela Laranja Mecânica

A expulsão de Luís Pereira, em lance duro sobre Neeskens, ajudou a fixar a imagem de uma seleção brasileira frustrada, tentando competir em um jogo que mudava de idioma. O Brasil não perdeu apenas porque a Holanda tinha Cruyff. Perdeu porque a Holanda tinha uma ideia coletiva mais atual. E esse é o ponto essencial para entender por que a seleção não foi protagonista como em 1970: faltavam craques decisivos, sim, mas faltava sobretudo uma identidade renovada. O Brasil tentou defender um império com ferramentas de transição.

A derrota para a Polônia na disputa do terceiro lugar completou o retrato. Os poloneses, liderados por Lato, eram outro exemplo da força emergente daquele Mundial: velocidade, condicionamento, verticalidade e competitividade. O quarto lugar brasileiro, em termos frios, não foi desastroso. Para qualquer outra seleção, seria uma campanha relevante. Para o Brasil que vinha do México, soou como rebaixamento de status.

Nasce uma nova era

A Copa de 1974, portanto, deve ser lembrada como um torneio de passagem. A Alemanha Ocidental venceu porque reuniu talento, mando de campo, experiência e capacidade de decisão. A Holanda encantou porque apresentou uma gramática nova. A Polônia confirmou que o futebol europeu do Leste tinha vigor e organização. E o Brasil aprendeu que tradição não sustenta protagonismo quando o jogo muda.

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O Mundial Alemão não apagou 1970. Nenhuma Copa conseguiria. Mas mostrou que aquele Brasil era um ponto alto, não uma garantia eterna. Quatro anos depois do tricampeonato, a seleção ainda tinha respeito, jogadores enormes e a camisa mais temida do planeta. O que não tinha era o futuro. Em 1974, o futuro vestiu laranja, a taça ficou com a Alemanha e o Brasil voltou para casa com a constatação incômoda de que a beleza também precisa se reinventar.

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