A decisão da CBF de promover uma viagem de imersão com dirigentes e executivos de clubes brasileiros às três principais ligas de futebol do mundo — LaLiga, Premier League e Bundesliga — merece elogios. Abrir-se para aprender, observar e trocar experiências com quem faz melhor já é, por si só, um avanço relevante para um futebol que durante décadas se acreditou autossuficiente.

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Por muito tempo, o futebol brasileiro viveu preso a uma sensação enganosa de superioridade. Produzíamos talentos em escala industrial, vencíamos Copas do Mundo, exportávamos jogadores e, embalados por esse passado glorioso, nos convencemos de que não havia nada a aprender com ninguém. Esse foi um erro histórico, alimentado por empáfia, provincianismo e uma perigosa limitação de horizontes.

Samir Xaud, presidente da CBF, busca melhorar o futebol brasileiro ao levar dirigentes para aprender na Europa / CBF

E, num ambiente globalizado, nenhum setor — muito menos um negócio bilionário —, evolui isolado. Conviver, compartilhar conhecimento e buscar referências deixou de ser opção: virou obrigação. Benchmark talvez não seja a chave mágica do sucesso, mas é, sem dúvida, a porta de entrada para processos consistentes de evolução e aprendizado.

Imersão do futebol brasileiro

Nesse contexto, a imersão organizada pela CBF ganha relevância. Uma comitiva formada por dirigentes das Séries A e B e representantes de federações estaduais estará na Europa pelos próximos dias, com agendas estruturadas na Espanha, Inglaterra e Alemanha. O objetivo é claro: entender, de forma prática, como funcionam os modelos de gestão, governança e organização de LaLiga, Premier League e Bundesliga — ligas que não são referências apenas pelo nível técnico, mas pela solidez institucional que construíram.

Dois temas sensíveis para a realidade brasileira estarão no centro das discussões: arbitragem e fair play financeiro. Não por acaso. São justamente dois dos maiores gargalos estruturais do nosso futebol e pontos recorrentes de conflito, desconfiança e improviso.

Além da arbitragem, outro tema que a CBF quer analisar na Europa é o Fair Play Financeiro, uma novidade no Brasil / CBF

A arbitragem brasileira sofre há anos com falta de profissionalização plena, critérios pouco transparentes e pressão política constante. Já o fair play financeiro, tratado como tabu por décadas, começa finalmente a entrar no debate de forma mais concreta. Não por acaso, a CBF divulgou no fim de novembro as regras para implementar um sistema de controle financeiro a partir deste ano e criou um grupo de trabalho com clubes para discutir melhorias tanto nesse campo quanto na arbitragem.

O atraso brasileiro é evidente

Estamos distantes das grandes ligas em organização, planejamento, governança, gestão de recursos, marketing, patrocínios, regulação e administração esportiva. E é justamente por isso que aprender com quem acertou não é sinal de fraqueza — é demonstração de maturidade.

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Resta torcer — e cobrar — para que essa iniciativa não se transforme apenas em mais um dos famosos trens da alegria patrocinados pela CBF num passado não tão distante. Essa não pode ser só um passeio, mas, sim, uma viagem de trabalho. A CBF, desta vez, faz sua parte ao abrir portas e oferecer condições para que clubes e federações ampliem seus horizontes. Cabe aos convidados compreender que essa é uma oportunidade rara de amealhar conhecimento. Se for bem aproveitada, essa imersão pode ajudar o futebol brasileiro a deixar de copiar apenas os vícios do exterior e, finalmente, importar boas práticas.

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