O futebol brasileiro está atravessando uma mudança estrutural que não pode mais ser tratada como pontual. Nos últimos anos, as casas de apostas dominaram o espaço mais nobre das camisas dos clubes, as placas de campo, os backdrops de entrevista e os intervalos de transmissão. Em pouco tempo, viraram o principal motor financeiro do marketing esportivo nacional. Parecia uma fonte inesgotável de recursos. Mas toda dependência cobra seu preço.

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Com a regulamentação definitiva do setor, o Brasil passou a tributar diretamente as casas de apostas sobre o chamado GGR (Gross Gaming Revenue), que é a receita que sobra depois do pagamento dos prêmios aos apostadores. Desde janeiro de 2025, essa alíquota é de 12% sobre o GGR. Mas esse número não é estático. Ele sobe ano a ano. A taxa sobe para 13% em 2026, 14% em 2027 e chega a 15% em 2028. Ou seja, o custo de operar no Brasil já tem data para aumentar.

Marketing das bets nos clubes está passando por uma reavaliação de estratégia e da divisão do dinheiro / Corinthians

Além disso, as bets passaram a pagar cerca de R$ 30 milhões para obter a licença de operação por cinco anos, além de exigências de compliance, estrutura local, controles, auditorias e outras obrigações regulatórias. Na prática, o ambiente ficou mais caro, mais controlado e menos elástico para investimentos agressivos em marketing. E quando o custo sobe, o investimento muda de lugar.

A CASA MUDOU AS REGRAS

O dinheiro que antes sobrava para marketing agora precisa cobrir impostos, estrutura regulatória, tecnologia e adaptação ao novo marco legal. O futebol, que era um atalho rápido para visibilidade e aquisição de usuários, passou a ser analisado com mais cautela. Não porque deixou de ser relevante, mas porque ficou mais caro em um momento em que a margem dessas empresas diminuiu. Esse ajuste não é emocional. É matemático.

Patrocínio esportivo é uma das primeiras linhas a ser revista quando um setor entra em fase de reorganização. Diferentemente de despesas operacionais, ele pode ser reduzido, renegociado ou redistribuído rapidamente. É exatamente isso que estamos vendo agora: menos contratos, valores menores, acordos mais curtos e uma seleção muito mais criteriosa de onde colocar dinheiro. Há também uma busca por credibilidade.

Não basta só apresentar visibilidade para as marcas de apostas esportivas: elas querem muito mais dos clubes / Palmeiras

O reflexo disso já aparece nos campos. Clubes tradicionais da Série A começaram a temporada sem patrocinador máster de apostas, algo que até pouco tempo atrás parecia impensável. Internacional, Grêmio, Bahia, Coritiba, Santos e Vasco são exemplos de times que, por diferentes motivos, perderam seus acordos com casas de apostas ou não conseguiram renová-los nos mesmos patamares financeiros.

Em alguns casos, houve atrasos, revisões contratuais ou desistências por parte das próprias empresas. Em outros, simplesmente não houve apetite para manter os valores praticados nos anos anteriores e, infelizmente para os clubes, esse movimento não é pontual. As empresas de mídia estão no mesmo barco.

NEM TODA APOSTA PAGA

Durante o auge das bets, praticamente todo o futebol brasileiro passou a operar como se esse dinheiro fosse permanente. Orçamentos foram montados, folhas salariais cresceram, contratações foram feitas e planejamentos esportivos foram desenhados contando com esse fluxo. Agora, a conta precisa ser refeita. Não é só trocar uma marca na camisa. É refazer projeções, ajustar expectativas e rever discursos.

Todos os clubes da Série A já tiveram parceiras de bets: poucos se planejaram além dos contratos / Fluminense

O problema maior, no entanto, não é a saída das bets. É a dependência que o futebol criou delas. O dinheiro das apostas entrou como solução rápida para um sistema historicamente desorganizado comercialmente. Em vez de usar esse período para profissionalizar áreas de marketing, desenvolver novos produtos, estruturar ativos digitais e diversificar patrocinadores, muitos clubes simplesmente aceitaram o dinheiro que estava mais disponível. Não construíram uma estratégia. Apenas surfaram a onda.

Agora, com a maré baixando, o vazio aparece. Esse momento expõe uma fragilidade estrutural: quando quase todos os clubes dependem de um único tipo de patrocinador, qualquer mudança nesse setor vira uma crise coletiva. O futebol brasileiro não diversificou sua base de receita. Ele concentrou.

APOSTA EM UMA FICHA

Ao mesmo tempo, esse cenário também abre uma oportunidade rara. A retração das bets cria espaço para marcas que antes se sentiam expulsas por valores inflacionados. Varejo, tecnologia, educação, saúde, serviços, fintechs, logística, consumo e empresas regionais podem voltar a enxergar o futebol como uma plataforma viável.

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Mas essas marcas não querem apenas colocar um logo na camisa. Elas querem relacionamento, engajamento, storytelling, dados, comunidade e presença real. Isso exige um novo tipo de clube: mais estruturado, mais estratégico, mais criativo e menos dependente da lógica de “venda de espaço”. Durante décadas, o futebol se vendeu como outdoor. Camisa, placa, backdrop. Isso funcionava quando a atenção era concentrada. Hoje, a atenção é fragmentada. O futebol não é mais só o jogo. É bastidor, corte, story, live, meme, narrativa e construção de identidade.

DINHEIRO MUDA DE LÓGICA

O dinheiro não acabou. Ele mudou de lógica. Agora, vai para quem entrega mais do que visibilidade. Vai para quem constrói conexão. No fim das contas, a nova política fiscal não apenas diminuiu o investimento das bets, mas expôs um problema estrutural do futebol brasileiro: a falta de visão de longo prazo no marketing. Quem entender esse momento como reinvenção vai sair mais forte. Quem insistir em vender apenas espaço vai sentir ainda mais o impacto. O “All in” tá dado!

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