É doloroso constatar que a Ponte Preta, o clube mais antigo em atividade no futebol brasileiro, desde 1900, caminha mais uma vez para um abismo que não combina com a sua história. Lanterna do Campeonato Paulista após três rodadas, com zero ponto conquistado e nenhum gol marcado, a Macaca dá sinais claros de que pode estar diante de mais uma campanha vexatória — não apenas pelos resultados em campo, mas sobretudo pelo contexto que os explica.
O que torna o cenário ainda mais triste é o contraste com o passado recente. Há pouco mais de um mês, a Ponte celebrava o título brasileiro da Série C, uma conquista que devolvia o clube ao cenário nacional da Série B, com maior visibilidade, novas receitas e a chance concreta de reconstrução. Era o momento de virar a página, de transformar o alívio esportivo em ponto de partida para um novo ciclo. Em vez disso, o clube de Campinas parece ter se perdido outra vez nos próprios labirintos administrativos.

Afogada em passivos financeiros, a Ponte Preta enfrenta um transfer ban que a impede de registrar reforços no início da temporada. O reflexo é imediato e cruel: contratações que não podem jogar, um elenco curto, desgastado emocionalmente, e um time que entra em campo fragilizado, mais preocupado em sobreviver fora dele do que em competir dentro das quatro linhas.

Antes mesmo de a bola rolar no Paulistão, os sinais de colapso já estavam dados. Jogadores cogitaram fazer greve e não estrear, salários atrasados vieram à tona e o clube precisou recorrer ao discurso emocional e à boa vontade dos atletas para evitar um esvaziamento imediato. Promessas foram feitas. A solução, porém, não veio. E a consequência está aí, evidente.
Clube refém da boa vontade
Alguns atletas já optaram por sair. Outros avaliam o próprio futuro. Até mesmo Elvis, um dos símbolos recentes da Ponte, cansou de esperar e manifestou o desejo de deixar o clube. O técnico Marcelo Fernandes, por sua vez, vive o papel ingrato de tentar manter o grupo unido na base da conversa, do apelo humano, quase como quem pede para não abandonarem o barco em meio à tempestade. Após a última derrota, ele escancarou o tamanho do problema.
Pedi para os jogadores ficarem até terça-feira. Tive de pedir para não irem embora. Fomos campeões da Série C há 40 dias. Estivemos juntos na alegria e agora estamos lutando na tristeza
Marcelo Fernandes, técnico da POnte preta

Nada disso é pequeno. Nada disso é aceitável. O que acontece hoje na Ponte Preta ultrapassa a esfera do mau momento esportivo e entra no campo da responsabilidade institucional. Um clube com 125 anos de história não pode depender da boa vontade de atletas para simplesmente cumprir tabela nem transformar o vestiário em espaço de súplica permanente.
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A Ponte Preta não precisa de discursos emocionais nem de promessas vagas. Precisa de gestão, transparência e decisões urgentes. A história que tantas vezes foi evocada para convencer jogadores a ficar exige, agora, respeito de quem dirige o clube. Porque se nada for feito, o risco já não é apenas o rebaixamento no Paulistão — é a naturalização do colapso como se ele fosse parte do destino da Macaca. E isso, definitivamente, a Ponte não merece.





