Leonardo de Sá
Futebol e geopolítica podem parecer assuntos distantes, mas, no mundo da bola, a influência sobre a estrutura do esporte é política. Relação que pode ser observada na possibilidade de um boicote à Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos. A Alemanha foi o primeiro país europeu que levantou o tema nos últimos dias. O pano de fundo da discussão é a crise recente gerada pela “disputa” americana pela Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, e suas prováveis consequências caso seja agravada a situação.
Para tratar do tema, The Football conversou com Rodrigo Augusto Duarte Amaral, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor em Relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, que analisou a viabilidade do boicote esportivo, seus precedentes históricos e a relação entre Donald Trump e Gianni Infantino, presidente da Fifa.

Os Estados Unidos intensificaram nos últimos meses a pressão para que a Groenlândia seja cedida ao seu controle. Segundo Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, a medida teria como objetivo conter a influência da Rússia e da China no Ártico. A porta-voz afirmou que a diplomacia é a opção preferencial, mas não descartou o uso da força.
Ameaças de Donald Trump
Esse movimento, somado a tensões econômicas recentes — como a ameaça do presidente americano de impor tarifas a países da União Europeia a partir de fevereiro, ideia da qual recuou nos últimos dias —, reacendeu debates políticos no continente europeu. Entre eles, a possibilidade de um boicote à Copa do Mundo de 2026, que terá como um de seus países sede os Estados Unidos.

Na Alemanha, o tema chegou ao debate institucional. O governo decidiu deixar a escolha de participação no Mundial a cargo da federação de futebol do país, informação que foi reportada pela Reuters e pelo jornal alemão Bild. A decisão, que parece “desviar da diplomacia internacional”, não elimina a dimensão política do tema, diz Duarte Amaral. “Isso pode parecer uma separação entre política e esporte, mas, na verdade, os governos têm a capacidade de influenciar essas decisões”, defende o internacionalista.
Os governos podem intervir
Segundo o professor, em cenários de agravamento diplomático, a autonomia formal das federações esportivas pode ser relativizada. “Em uma situação de crise política significativa, o governo poderia intervir”, completa. Do ponto de vista político, a viabilidade de um boicote europeu à Copa de 2026 é considerada complexa e atravessada por diferentes interesses nacionais. Caso venha a ocorrer, o movimento teria um caráter inédito nas relações internacionais contemporâneas. Ainda mais por envolver um bloco que historicamente é aliado e se comporta como tal.
Se um boicote realmente acontecer, seria algo inédito. Seria a primeira vez que uma nação ocidental boicotaria outra nação ocidental em um evento esportivo desse porte.
Rodrigo Augusto Duarte Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP
Para o internacionalista, ao longo da história, boicotes costumam ser direcionados a países considerados párias pela comunidade internacional. Além disso, outro entrave seria a dificuldade de uma ação coordenada no interior da própria Europa. “Sobre a possibilidade de a Europa agir conjuntamente em bloco para boicotar os EUA, a situação é complexa. Pois não apenas envolve as particularidades de países governados por líderes com visões de mundo distintas e muitas vezes opostas”, explica o professor, citando como exemplo as diferenças entre governos como o da Itália, sob Giorgia Meloni, e o da Espanha, liderada por Pedro Sánchez. São lideranças opostas do ponto de vista político no continente.
Precedentes
Boicotes esportivos não são novidade na história das competições internacionais. Um dos exemplos mais conhecidos ocorreu nos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, quando os Estados Unidos e aliados deixaram de participar em resposta à invasão soviética no Afeganistão. Além desse caso, em outros momentos recentes do futebol, houve tentativas frustradas de boicote, como o pedido de represália para a Rússia na Copa de 2018 pela anexação da Crimeia e ao Catar, na Copa de 2022, pelas violações contra os direitos humanos.
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Segundo o professor, esses episódios ajudam a entender o padrão histórico desse tipo de retaliação. Para ele, o diferencial do debate atual está justamente no fato de envolver países do mesmo bloco geopolítico.

O professor também destaca a seletividade dessas punições. “Isso está bastante presente na história das relações internacionais, particularmente na história dos Estados Unidos, que, mediante sua posição hegemônica, é quem determina quem seriam ‘párias’”, afirma, citando o banimento da Rússia de competições esportivas internacionais desde o início da guerra na Ucrânia.
Duarte Amaral aponta incoerências no discurso americano recente, ressaltando a situação de Israel, um Estado que é acusado de crimes contra a humanidade por entidades jurídicas internacionais, mas não é banido. “O mesmo não vale para Israel, que apesar de ser um Estado que comete crime contra a humanidade e é acusado de genocídio por entidades jurídicas internacionais, não sofre esses tipos de punições e exclusões esportivas”, completa o especialista.
Fifa e EUA
Segundo o internacionalista, a discussão expõe ainda o papel da Fifa e sua relação com a política internacional. Embora a entidade frequentemente sustenta um discurso de neutralidade e se apresenta como “apolítica”, essa posição é questionada diante de decisões recentes e da atuação de sua liderança.
Há uma falsa percepção de que as entidades esportivas seriam neutras. Como disse, não são. DUARTE AMARAL
De acordo com Rodrigo Duarte Amaral, essa suposta isenção está associada a uma visão de mundo liberal-capitalista predominante na estrutura internacional e que orienta, de forma indireta, as escolhas institucionais do futebol global. A proximidade entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e lideranças políticas como Donald Trump é um dos exemplos citados.

Em 5 de dezembro, durante o aguardado sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2026, Infantino entregou ao presidente dos Estados Unidos o primeiro “Prêmio da Paz” da entidade — uma honraria apresentada como reconhecimento aos esforços em prol da união global. O gesto ocorreu em meio ao contexto de tensões diplomáticas envolvendo os EUA.
Essa aproximação pode ser uma estratégia para garantir apoio, mas também pode comprometer a integridade da organização.
Duarte Amaral
A relação direta entre a principal entidade do futebol mundial e chefes de Estado reforça o caráter político da Fifa, mesmo quando a instituição tenta se colocar acima dessas disputas, defende o especialista. O cenário atual, segundo Duarte Amaral, amplia fissuras internas. “Nesse atual quadro de tensão dentro do próprio Atlântico Norte, o posicionamento ideológico do Infantino fica ainda mais em evidência”, diz.
O internacionalista ainda destaca que esse tipo de ruído pode resultar em perda de coesão institucional, agravando a fragilidade de uma entidade que ainda carrega o peso históricos de escândalos de corrupção, apesar dos esforços recentes para reposicionar sua imagem pública e reconstruir sua reputação.





