Por Fabrício Barcelos
A bola de couro vagabundo, ovalada, cambaleou até o chute potente e preciso. Da nuvem de areia que subiu do campinho, Ortiz emergiu, braços escancarados. Meninos são encorajados a evitar contatos corporais com outros meninos, talvez por isso Fabiano lembre vividamente do roçar da barba germinando no rosto de Ortiz, quatro décadas depois da celebração desse gol marcado sob o sol de um verão dos anos 80.
Não se trata de uma reminiscência sobre intimidades interditadas. O que aturde Fabiano é o assombro com o que se desfez. Como Ortiz, cúmplice de alegrias e angústias na travessia para a vida adulta, fisicamente tão próximo, se converteu num cara repulsivo não pelo que emana dos poros, mas da mente?

A vida de ambos se bifurcou bem antes da multidão espumar nas urnas em 2018. Carente de talentos esportivos, Fabiano meteu-se a fazer vestibular enquanto Ortiz, impaciente com contemplações, alistou-se no Exército. O vagar dos anos na academia e nos quartéis se encarregou de afastá-los.
A PRESSA DE RETER O QUE INSISTE EM ESCAPAR
Fabiano percebe que as redes sociais sinalizaram o tamanho do estrago que fariam. Antes de tribalizar pessoas ao redor de certezas frágeis, devolveu gente soterrada pelo tempo. Foi assim que Ortiz, naquela transição do Orkut para o Facebook, reapareceu para ele. Veio com intimidades alicerçadas em duas pessoas que não existiam mais, dissolvidas pela maturidade. Restava pouco de intersecção.
Resvalando em pedantismo, Fabiano dava aula de literatura. Ortiz saíra das Forças Armadas e se virava vendendo comida gordurosa atrás do balcão de pequenos comércios. Certa manhã enviou foto do filho com uniforme escolar e, num lapso de esperança, legendou: “Pelo menos vai ter estudo.” Em Fabiano, ressurgiu a lembrança do abraço, da pressa do amigo em reter o que insiste em escapar.
O AFETO RESIDUAL DA INFÂNCIA
Foi esse afeto residual da infância que fez Fabiano resistir nas conversas, que, sem mais hiatos de ternura, passaram de inconvenientes à expressão de ressentimentos. “A culpa é de vocês, professores, que ficam jogando essas coisas nas cabeças de nossas crianças”, vociferou Ortiz, num juízo pouco original, mas que ele alardeava com o destemor daqueles que ignoram a própria ignorância.
Claro, Fabiano vota na esquerda, mas esperneia para não se anestesiar intelectualmente em bolhas. Até ouve podcast de gente liberal, essa direita que não bate continência nem canta hino para pneus. Num episódio, topou com a World Values Survey, pesquisa internacional que mapeia, há décadas, o que sociedades valorizam e temem. Um dos achados, dizia o programa, é que insegurança prolongada e escassez empurram populações para valores de sobrevivência: ordem, proteção, tradição. A estabilidade e a prosperidade alargariam o espaço da tolerância e da experimentação.
O DOLOROSO BLOQUEIO NO WHATSAPP
Parece fascinante, mas simplório, rumina Fabiano. Há uma tropa de rico surfando no conservadorismo para manter as coisas como estão, vencendo a batalha discursiva a ponto de seu amigo, Ortiz, falar como se fosse um deles. Fabiano também se horrorizou com um disparate estético: quem faz experimentação ao som de Gusttavo Lima?
Dias atrás, exausto da violência da retórica e da própria impaciência, bloqueou o amigo no WhatsApp. Sentiu a vista turvar como se voltasse ao centro daquela nuvem de areia. E se entristeceu, porque, dessa vez, nem o futebol salva. Nenhum abraço vai sair de lá.
QUEM É ELE
Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.





