Por Leonardo de Sá
Não é de hoje que a arbitragem no Brasil é alvo de questionamento e de desconfiança no futebol. A falta de profissionalização e certo descaso da CBF com o setor complicam ainda mais a situação vivida nos últimos dias. O início do Brasileirão, a Supercopa e os campeonatos estaduais no início de 2026 exemplificam bem isso. Lances como o do possível pênalti em Arrascaeta diante do São Paulo, a expulsão de Carrascal por lance antes do intervalo, e as diversas reclamações nos Estaduais quanto ao apito reafirmam o cenário de crise.
Não que as reclamações tenham sempre fundamento, mas nota-se um padrão e até mesmo uma falta de explicação ao público de como o árbitro trabalha, sob quais regimentos e como melhorar essa interlocução com os clubes e telespectadores. Ainda mais depois da implementação do VAR, tecnologia que causa polêmica, mas que foi criada com o intuito de “auxiliar” o jogo. Para tratar do tema, The Football conversou com Manoel Serapião, ex-árbitro Fifa e o idealizador do projeto original do VAR no Brasil. Ele detalhou as falhas de protocolo e a distância entre a teoria e a prática atual.

Desvio do propósito original
Para Serapião, o sistema que deveria funcionar como uma “UTI” para salvar “pacientes terminais” (erros crassos) acabou sendo banalizado pela gestão nacional. Ele aponta que a busca incessante da CBF pela “decisão mais justa” acabou violando o protocolo internacional que ele mesmo ajudou a redigir. “Lamentavelmente, a CBF adotou o sistema de buscar a decisão mais justa, o que viola o protocolo que limita a atuação do VAR a erros claros e óbvios“, explica.
Segundo o especialista, essa confusão conceitual faz com que o VAR brasileiro intervenha em lances de interpretação subjetiva, enquanto ignora falhas evidentes. “Queremos demais e, por isso, estamos confusos. Não alcançamos o essencial”, defende o ex-árbitro, ressaltando que hoje a tecnologia é acionada “até para resfriados”.
Supercopa e o caso Carrascal
Um dos pontos de maior fricção recente envolveu a expulsão de Carrascal, em que a decisão de um lance ocorrido no primeiro tempo foi tomada apenas após o intervalo. Serapião defende que, embora a agilidade deva ser a tônica, o acerto é soberano. No entanto, ele critica a falha de comunicação no campo. “O certo seria o VAR recomendar que o árbitro aguardasse a checagem completa antes de deixar o campo. O que faltou foi o árbitro explicar aos capitães a razão da demora“, analisa.

Sobre a atuação de Péricles Bassols no episódio, o idealizador do VAR no Brasil é enfático ao dizer que não houve ferimento ao protocolo. Para ele, Bassols agiu para garantir que a regra fosse cumprida, e não para interferir na decisão técnica. No entanto, Serapião aponta que a demora em identificar lances de agressão imediata expõe uma fragilidade humana, e não tecnológica. Para o idealizador, o fato de o VAR não perceber a conduta violenta prontamente revela uma falta de expertise dos operadores.
“Haveria interferência se ele emitisse opinião para dizer se o jogador deveria ou não ser expulso. O protocolo autoriza o observador a atuar exatamente para que o protocolo não seja ferido“, comentou.
Gestão x amadorismo
A recorrência de polêmicas, na visão de Serapião, não é um problema isolado de tecnologia, mas de gestão e filosofia. Ele aponta que o futebol brasileiro sofre de um “absoluto amadorismo” que não se sustenta em princípios seguros. Para o especialista, a inclusão de lances interpretativos no protocolo afastou o que ele chama de “arbitragem raiz”, aquela que se impõe por competência e autoridade em campo.
Questionado se o sistema atual ainda reflete o seu projeto original, o ex-árbitro identifica um desvio perigoso. Para ele, o uso excessivo da tecnologia em lances menores acaba por minar a autonomia do juiz de campo. “O VAR deveria salvar arbitragens, não substituí-las. Estamos afastando o princípio das arbitragens fortes“, completa.

Esperança para a temporada
Apesar das críticas ácidas à estrutura, Serapião enxerga “luz no fim do túnel” nas rodadas mais recentes. Ele destaca as decisões tomadas em partidas como Palmeiras e Vitória, no qual lances de contato corporal e bola na mão foram resolvidos com autoridade no campo e respeitados pela cabine de vídeo.
SIGA THE FOOTBALL
Instagram
Facebook
Linkedin
TikTok
Facebook
Para o idealizador, esses são sinais de que diretrizes harmonizadas com as regras da Fifa podem estar finalmente sendo traçadas para 2026. “As decisões de campo foram acertadas e tomadas com autoridade. São ótimos sinais para o bem do nosso futebol. Sempre há esperança“, diz o especialista.





