O day after da derrota segue doendo no coração dos ingleses. Quase todos eles não têm dúvidas de apontar o dedo para Thomas Tuchel como o grande culpado pela derrota da Inglaterra para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo de 2026. Tomados por um sentimento que mistura decepção e revolta, torcedores e boa parte da imprensa responsabilizam o treinador pela estratégia adotada depois que a seleção abriu 1 a 0, aos dez minutos do segundo tempo, com o gol de Gordon.
Para eles, recuar o time para defender a vantagem não foi uma simples opção tática, mas um verdadeiro suicídio. Ainda mais diante de uma Argentina que já havia construído sua campanha em cima de viradas épicas, sempre impulsionadas pela raça, pela pressão sufocante, pelo coração e, evidentemente, pelo talento inesgotável de Lionel Messi. Aos olhos dos ingleses, Tuchel ignorou todos esses sinais e pagou o preço.

O alemão passa, assim, a viver um calvário conhecido por treinadores de todas as partes do mundo. A surpresa talvez seja outra. Sempre se vendeu a imagem de que a Inglaterra tratava o futebol com mais racionalidade do que os países latinos. A eliminação para a Argentina mostrou exatamente o contrário. Também por lá floresce o velho mito do “técnico burro”, do treinador transformado em vilão, incompetente e único responsável pelo fracasso coletivo.
Lá, como cá, a cultura do resultadismo não tolera desaforos. Não há qualquer constrangimento em iniciar uma caça às bruxas para entregar ao povo a cabeça de um culpado. É assim que funciona a inquisição do futebol, um tribunal que não respeita currículos, ignora contextos e não poupa biografias.
No frigir dos ovos
É claro que Tuchel tomou decisões que resultaram num fiasco nos 35 minutos finais da partida. As substituições, a opção por colocar a equipe em bloco baixo e abdicar da busca pelo segundo gol transformaram a Inglaterra numa presa fácil para a pressão argentina. A ausência de uma marcação individual sobre Messi talvez tenha sido seu maior erro estratégico. Deu tudo errado. Mas poderia perfeitamente ter dado certo. Nesse caso, hoje estaríamos discutindo a frieza, a coragem e a inteligência de um treinador que soube sofrer para garantir a classificação. Toda análise pós-jogo tem esse viés cruel da engenharia de obra pronta.
O curioso é perceber como, de uma hora para outra, Tuchel passou a ser tratado como o único responsável pela eliminação. Foi tragado pela roda-gigante que altera o valor de um trabalho conforme o placar do último jogo. Até a derrota para a Argentina, era visto como uma escolha acertada da Federação Inglesa. No Brasil, inclusive, muitos analistas utilizavam seu desempenho para estabelecer comparações com Carlo Ancelotti. Os dois assumiram suas seleções praticamente no mesmo período. Enquanto a Inglaterra chegava às semifinais, Tuchel era elogiado pelos avanços obtidos, ao mesmo tempo em que Ancelotti era criticado pelo pouco que entregara à Seleção Brasileira em ano de trabalho.
Hoje o cenário se inverteu. Ancelotti passou a ser tratado com complacência sob o argumento de que ainda não teve tempo suficiente para consolidar seu trabalho. Já Tuchel parece condenado a pagar sozinho pela eliminação inglesa e pode até deixar o cargo. É a gangorra implacável que rege a vida dos treinadores.
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Ainda não há qualquer indicação oficial de que Tuchel será demitido. Mas cresce a sensação de que a insossa disputa do terceiro lugar contra a França poderá representar seu último ato no comando da Inglaterra. Pesam contra ele não apenas as críticas da imprensa especializada e a revolta dos torcedores. Há um verdadeiro coro formado por ex-ídolos da seleção inglesa disposto a transformá-lo em persona non grata depois da derrota para os argentinos.
Um compilado de declarações publicado pelo jornal italiano La Gazzetta dello Sport revela a dimensão desse tribunal de execução. Gary Lineker classificou como “desconcertante” o plano de jogo inglês, criticou duramente a liberdade concedida a Lionel Messi e, em tom de ironia, chegou a brincar que Tuchel seria um “espião alemão” enviado para sabotar a seleção inglesa. Wayne Rooney foi ainda mais direto ao afirmar que o treinador entrou em pânico depois do gol de Gordon, matou a confiança da equipe ao recuar excessivamente o time e abriu mão de buscar o segundo gol, permitindo que a Argentina cercasse a área até encontrar a virada. Michael Owen seguiu a mesma linha. Comparou a postura conservadora da Inglaterra à coragem demonstrada pela Espanha diante da França, afirmou que os ingleses são até melhores que os argentinos e sustentou que as mudanças promovidas por Tuchel transmitiram uma mensagem de medo aos próprios jogadores.
A julgar pelo teor dessas declarações, Tuchel desembarcará em Londres muito mais como réu do que como treinador. Se permanecerá ou não no cargo, o tempo dirá. Mas o veredito da opinião pública já parece ter sido pronunciado. Como acontece em praticamente toda eliminação dolorosa de Copa do Mundo, o futebol escolheu um rosto para simbolizar um fracasso que, na verdade, sempre pertence a muito mais gente do que apenas ao homem sentado no banco de reservas.





