Sem esconder constrangimento, o técnico Dorival Júnior revelou que a contratação do marroquino Zakaria Labyad não foi uma indicação sua — o que equivale a dizer que o atleta jamais esteve na lista de reforços apresentada pelo treinador aos executivos de futebol do clube. Ao anunciar publicamente que não conhecia sequer o futebol do jogador africano, Dorival não apenas se protegeu de um eventual fracasso técnico e esportivo da contratação, como também escancarou a existência, no Corinthians, de um modelo de gestão de recursos humanos que envolve outras pessoas, outros critérios e outros interesses além do aspecto puramente técnico.

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O que até pode ser compreensível, mas não deixa de soar estranho. Afinal, o senso comum pressupõe que um clube só vai atrás de um jogador indicado pelo treinador — que é, em tese, quem melhor sabe avaliar as carências e necessidades do grupo com o qual pretende trabalhar. Evidentemente, nem sempre seus desejos podem ser atendidos. E é justamente aí que reside parte da explicação para a chegada de Zakaria agora — e de tantos outros jogadores em tempos passados que não deram resultado e hoje estão encostados no Corinthians.

Dorival Júnior admitiu publicamente que não indicou Zakaria Labyad, novo reforço do Corinthians, de 32 anos / Corinthians

O caso mais recente é o de Héctor Hernández, por exemplo, uma contratação que nunca demonstrou potencial efetivo para ser útil ao time. Uma operação fracassada que só se explica pelo fato de que, no Corinthians — e talvez em vários outros clubes brasileiros —, a palavra do treinador não é definitiva para determinar quem entra e quem sai do elenco.

Sem dinheiro

No caso do Corinthians, é óbvio que a situação financeira agrava ainda mais o problema. Sem dinheiro, a diretoria não tem como simplesmente atender aos pedidos do treinador. No máximo, consegue oferecer como contrapartida jogadores que surjam como “oportunidades de mercado”, a custo zero na contratação. São apostas, como Zakaria, que podem ou não dar certo. Porque é o que existe no momento.

Dorival, provavelmente, sonhou com nomes como Gerson, Malcom, Alisson, Nino ou Arias, mas precisa se contentar com aquilo que o clube consegue contratar sem aprofundar o endividamento. Sob o ponto de vista da governança econômica, o Corinthians está certo — ainda que a perda esportiva seja evidente.

Cadê o Scout?

Com dinheiro, tudo seria mais fácil, como mostrou o Flamengo ao repatriar Lucas Paquetá ou o Palmeiras ao contratar Jhon Arias, em operações que superaram a casa dos 25 milhões de euros. Cifras absolutamente utópicas para os combalidos cofres corintianos. Ainda assim, não é apenas a questão econômica que precisa entrar nesse debate. A contratação de um jogador não indicado pelo técnico — e sugerido, ao que tudo indica, por Memphis Depay, amigo de Zakaria — traz à tona uma discussão incontornável: o que, afinal, está fazendo o departamento de scout do Corinthians?

Com base em dados, análises, relatórios e observações de campo, esses profissionais — bem remunerados — deveriam ser capazes de avaliar se uma oportunidade de mercado faz ou não sentido, independentemente de seu custo. Não importa que o jogador esteja livre e chegue “de graça”. A pergunta essencial permanece: ele tem qualidades, histórico e perfil que justifiquem a contratação? É realmente necessário aceitá-lo apenas porque é barato?

Não seria mais prudente buscar alguém da base para preencher essa lacuna? Ou então recorrer a um jogador de um clube do interior, a um custo igualmente razoável? A impressão é de que o Corinthians não aprendeu com o fracasso recente de Héctor Hernández.

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E isso não tem relação direta com as virtudes — ou limitações — de Zakaria Labyad. É perfeitamente possível que o desconhecido chegue, se adapte aos planos de Dorival, jogue bem e se revele um bom negócio. No futebol, não existe garantia de sucesso. Há inúmeros exemplos de atletas bem avaliados, bem pagos e cercados de expectativa que fracassaram, como Oscar no São Paulo, Atuesta no Palmeiras ou Bilal no Santos, apenas para ficar em casos recentes.

A reflexão, portanto, vai além de um nome específico. Ela toca no limite entre austeridade financeira e coerência esportiva — e expõe uma pergunta que o Corinthians insiste em adiar: até que ponto vale economizar hoje se o preço, amanhã, é repetir erros que já custaram caro demais? Porque no futebol, apostar faz parte do jogo. Mas apostar sem critério não é austeridade. É apenas trocar a falta de dinheiro pela falta de convicção.

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