Por Fabrício Barcelos
Ao cerrar os olhos, Paulo Honório ainda sente cheiros e ventos da Avenida Del Libertador. Foi só ali, cruzando uma das mais largas vias de uma cidade que se orgulha de impor estes sacrifícios aos pedestres, que recuperou a consciência. Entrara em transe quando, meio cambaleando, Júnior Santos fez o terceiro gol do Botafogo. O elegante bairro de Núñez via nascer um campeão da Libertadores, mas Paulo Honório, aquecido pelos abraços, levitando de incredulidade, não guardou memórias visuais. Os sentimentos daquele entardecer de 30 de novembro de 2024 latejam em outros sentidos.
Aos 50 anos, oitenta e nove quilos, sobrancelhas cerradas e grisalhas e rosto vermelho, Paulo Honório desfruta hoje de muita consideração. Mas foi sofrido, quase brutal, criar meios para certos luxos – como, por exemplo, viajar a Buenos Aires para ver o Botafogo pelear. Tudo sem contar moedas, bebendo quantidades industriais de Quilmes e comendo às largas nos bodegones.

Órfão, criado pelos padrinhos, sempre achou que os pais tinham seus motivos para não desejarem ser conhecidos. Livrou-se da fome rebocando paredes e, com retina treinada para as saliências, notou um fraco de Padilha, o patrão, para jogos, bebidas e prazeres da carne. Incentivou-o sorrateiramente ao vício, de tal modo que assumiu a empreiteira, saiu de Barros Filho e hoje tem uma clientela formada essencialmente por bacanas da Zona Sul. Muitos têm as paredes rebocadas por Padilha, agora seu funcionário.
VONTADE DE PODER
Aos poucos foi sendo dominado pela vontade de poder. Gosta de ser bajulado pelas posses. Os outros lhe interessam na medida em que se ligam a seus negócios, como mercadorias. Dos antigos companheiros de canteiro de obras, valoriza sobretudo a baixa pretensão salarial. E diz com tranquilidade que fez coisas boas que lhe trouxeram prejuízo e coisas ruins que lhe proporcionaram lucro.
Então um gringo fez do Botafogo sua propriedade e Paulo Honório experimentou algo que parecia irrealizável: o aumento do amor pelo clube. Contorceu-se de dor com aquela derrota de 4 a 3 de virada para o Palmeiras, mas, depois da catarse em Buenos Aires, cimentou a certeza na força da lógica empresarial, das metas financeiras, da racionalização de ativos e do investimento estratégico.
OS CAMPEÕES FORAM EMBORA
Mas o dono se meteu a vender todos os campeões, quando não os colocando a serviço de seus outros negócios em forma de clubes de futebol. De longe em longe, sente-se fatigado, sobretudo depois das seis derrotas seguidas. Já questiona se tudo pode se curvar à lógica do investimento ou se há espaços sagrados, onde o capital mais machuca do que afaga. Saudade? Não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.
E morre de medo de ver o clube do gringo – que já não é de ninguém – perder até para o S. Bernardo.
QUEM É ELE
Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football.






