Copa de 1970: Tri do Brasil coroa geração de Pelé e esconde horror da ditadura brasileira

Ao mesmo tempo em que coroava o talento brasileiro, o Mundial se tornava um dos episódios mais simbólicos da relação entre esporte e política

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A Copa de 1970 não foi apenas a consagração definitiva do futebol brasileiro. Foi também um dos episódios mais simbólicos da relação entre esporte e poder político no Brasil. Enquanto a seleção, sob o comando de Pelé, encantava o planeta com um futebol que parecia impossível, os porões da ditadura militar brasileira, sob o comando dos generais de plantão, mergulhavam o país nos chamados “anos de chumbo”, marcados por censura, perseguições, prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos.

Futebol e política

O mesmo Brasil que sorria diante da televisão para celebrar Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino e Gérson era o país que silenciava opositores na marra, sob as ordens de Emílio Garrastazu Médici, o general investido das funções de presidente da nação.

Tudo sobre a Copa do Mundo

Talvez nenhuma Copa do Mundo tenha sido tão apropriada politicamente quanto aquela disputada no México. O governo Médici percebeu rapidamente o potencial daquela seleção para alimentar o projeto ufanista do regime militar. O tricampeonato virou propaganda oficial. O futebol foi transformado em instrumento político. E a camisa amarela passou a carregar, ao mesmo tempo, o orgulho genuíno do povo e o peso simbólico de uma ditadura que tentava vender ao mundo a imagem de um país forte, unido e próspero. Mal comparando, era a mesma estratégia usada por Adolph Hitler para vender a ideia da supremacia ariana nos Jogos Olímpicos de Berlim, décadas atrás.

Pelé é celebrado após conduzir a seleção brasileira ao tricampeonato mundial no México, em 1970 / Fifa

O contexto ajudava. O Brasil vinha do fracasso traumático da Copa de 1966, na Inglaterra, quando caiu ainda na primeira fase em meio a um ambiente caótico, violência em campo contra Pelé e desorganização estrutural. A reconstrução para 1970 acabou coincidindo justamente com o período mais duro do regime militar.

Em dezembro de 1968, o AI-5 institucionalizou a repressão, fechou o Congresso, ampliou a censura e deu poderes absolutos ao governo. Dois anos depois, enquanto o país vivia sob medo, a seleção brasileira oferecia ao povo um raro momento de alegria coletiva, embalada por canções e slogans ufanistas ultranacionalistas. “Ame-o ou Deixe-o”….”90 milhões em ação, pra frente Brasil”.

Disputa de forças em verde e amarelo

Mesmo sem saber, a seleção estava a serviço dos militares. E que seleção era aquela: Félix; Carlos Alberto; Brito; Piazza; Everaldo; Clodoaldo; Gérson; Rivellino; Pelé; Jairzinho; Tostão. Mais de meio século depois, a escalação ainda soa quase como poesia para qualquer amante do futebol. Não apenas pelos nomes, mas pelo que aquele time representou dentro de campo.

Talvez nunca tenha existido uma reunião tão absurda de talento numa mesma equipe. Mário Jorge Lobo Zagallo herdou um problema que parecia insolúvel: encaixar cinco jogadores que, em seus clubes, eram essencialmente camisas 10. Gérson no São Paulo. Rivellino no Corinthians. Tostão no Cruzeiro. Jairzinho no Botafogo. Pelé no Santos. Na teoria, uma aberração tática. Na prática, uma revolução.

Zagallo, que herdou a seleção do técnico João Saldanha, orienta a equipe durante treinamento no México / Fifa

Chamado às pressas depois da queda de João Saldanha, Zagallo precisou reinventar o time. E aí está um dos capítulos mais políticos daquela Copa. Saldanha havia classificado o Brasil com autoridade, mas era jornalista, comunista declarado e crítico do regime. Seu relacionamento com Médici deteriorou rapidamente. A versão mais conhecida conta que o presidente quis interferir até em convocações e exigia a presença de Dadá Maravilha. Saldanha não sucumbiu e respondeu com uma resposta atravessada. “O presidente escala o Ministério dele e eu escalo o meu time”. Pouco depois, caiu.

Ainda mais memorável

Zagallo assumiu faltando poucos meses para a Copa e encontrou uma solução brilhante. Inspirado em características que ele próprio tivera como jogador, montou um sistema em que talento e solidariedade conviviam. O Brasil jogava num 4-3-3 móvel, quase artístico. Os cinco “camisas 10” passaram a ocupar espaços diferentes, trocando posições e sufocando adversários com inteligência. O resultado foi devastador. Seis jogos. Seis vitórias. Dezenove gols marcados. O mundo inteiro se rendeu.

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A Copa de 1970 também carregava simbolismos inéditos. Foi a primeira Copa transmitida ao vivo via satélite para o Brasil. Embora a televisão em cores estivesse começando a surgir, a imensa maioria dos brasileiros ainda assista aos jogos em aparelhos preto e branco. Mesmo assim, a sensação era de modernidade absoluta. Pela primeira vez, o país acompanhou uma Copa praticamente em tempo real, criando uma experiência coletiva nacional jamais vista. Ruas vazias, rádios ligados, famílias espremidas em frente às televisões e uma comoção popular gigantesca.

Roubaram a Jules Rimet

Era também a primeira final entre duas seleções já campeãs mundiais. De um lado, a Itália bicampeã de 1934 e 1938. Do outro, o Brasil, campeão de 1958 e 1962. Quem vencesse chegava ao inédito tri, que garantia a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Ela ficou no Brasil, onde teve um fim de puro infortúnio: roubada por ladrões na sede da CBF, a peça de ouro maciço foi derretida e vendida aos pedaços.

Mas nada consegue apagar a memória daquela final. A vitória por 4 a 1 em cima da Itália virou eternidade. O gol de Pelé, subindo quase imóvel no ar após cruzamento de Rivellino, virou uma das imagens mais icônicas da história do esporte. Gérson comandou o meio-campo como um maestro. Jairzinho marcou em todos os jogos da campanha — um feito jamais repetido por um campeão mundial. Tostão costurava espaços invisíveis. E Pelé parecia jogar acima dos próprios limites.

Apelidado de ‘Furacão da Copa’, Jairzinho marcou em todos os jogos daquela edição da Copa do Mundo / Fifa

O quarto gol contra a Itália talvez seja a síntese perfeita daquele time. Uma troca de passes quase coreografada até a bola chegar limpa para Carlos Alberto bater de primeira e fechar o 4 a 1. Uma obra de arte coletiva.

A arte versus a dureza

A ditadura tentava associar o triunfo esportivo à ideia de um país em crescimento, embalado pelo chamado “milagre econômico”, embora esse crescimento viesse acompanhado de desigualdade brutal e repressão violenta. A seleção não tinha culpa disso. Os jogadores tampouco eram agentes políticos do regime. O que existiu foi a apropriação oportunista de uma conquista popular por parte de um governo que precisava desesperadamente construir uma narrativa positiva sobre si mesmo. E talvez aí esteja a grande contradição da Copa de 70.

Seleção brasileira de 1970 é considerada uma das maiores equipes da história do futebol mundial / Fifa

Porque o futebol apresentado por aquele Brasil era genuinamente libertador. Era arte pura. Criatividade. Alegria. Improviso. Era um time que jogava sem amarras num país onde faltava liberdade. Enquanto Pelé & Cia. encantavam multidões diante das câmeras, muitos brasileiros desapareciam nos escuros porões da repressão, torturados até a morte. Por isso a Copa de 1970 permanece tão fascinante e tão complexa historicamente. Porque ela abriga simultaneamente duas verdades que convivem até hoje no imaginário brasileiro. A primeira: talvez tenha sido o maior time de futebol já reunido em todos os tempos. A segunda: sua conquista acabou utilizada como uma poderosa ferramenta política por um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Uma mistura de alegria e dor, festa e terror.

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