O Flamengo perdeu mais uma decisão de copa neste início de ano ao ser derrotado na final da Recopa Sul-Americana para o Lanús na quinta-feira. E o “Flamengazzo” — referência ao fiasco histórico da seleção brasileira na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã — fez estragos no clube. Pode parecer incrível, mas já dá para dizer: o Flamengo entrou em crise. Quem diria?
Um elenco bilionário, com pelo menos dois bons jogadores para cada posição, campeão de tudo no ano passado e que, de repente, se olha no espelho e não se reconhece. Ou pior: se vê como um time comum. O momento de instabilidade traz o pacote completo do futebol brasileiro: protestos de torcida, técnico chamado de “burro”, jogadores acusados de mercenarismo e corpo mole, atletas insatisfeitos, diretoria tentando colocar panos quentes nas situações mais delicadas. Nem parece o Flamengo, acostumado a resolver seus problemas com dinheiro e com a força da camisa.

E não foi apenas a queda na Recopa. Há menos de um mês, esse mesmo Flamengo já havia perdido a final da Supercopa Rei para o Corinthians. Dois golpes seguidos, pesados para um clube que se acostumou a se ver acima dos outros — dentro e fora de campo.
Time da Premier League?
O baque também atinge a prepotência de quem defendia a tese de que o Flamengo teria time para disputar a Premier League, como se a régua do futebol brasileiro estivesse muito abaixo do valor do elenco rubro-negro. O próprio presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP, já usou essa bravata escorada num argumento difícil de contestar: o orçamento do clube gira na casa de R$ 2 bilhões por temporada, patamar semelhante ao de clubes poderosos da Europa. Foi essa força financeira, por exemplo, que permitiu repatriar Lucas Paquetá por mais de 40 milhões de euros.
Vendo a crise de fora, há quem diga que o Flamengo está pagando caro pela ousadia — ou pela ganância — de montar um elenco tão estrelado. Parece um paradoxo, mas faz algum sentido. Com tantos bons jogadores à disposição, o técnico Filipe Luís acabou se perdendo na gestão do grupo e, como aconteceu contra o Lanús, tomou decisões discutíveis na escalação e nas substituições.
Um time ou uma seleção?
O treinador tem nas mãos um elenco que parece uma seleção. Mas o futebol tem uma regra simples e cruel: só onze jogam. A saída encontrada tem sido rodar o time constantemente, mudando escalações quase como regra. A ideia até pode ser defendida — afinal, vários atletas ainda buscam o mesmo nível físico neste início de temporada —, mas o efeito colateral é claro: desentrosamento e descontentamento.

Há também a pressão silenciosa para colocar em campo jogadores que chegaram a peso de ouro. E cada nova contratação importante abre espaço para um incômodo inevitável: alguém precisa sair do time. Desde a chegada de Paquetá, por exemplo, Filipe Luís não conseguiu repetir o meio-campo. É craque demais para vaga de menos. Pode parecer absurdo, mas esse é um dos fatores que ajudam a explicar um início de ano tão decepcionante para o clube mais rico do país.
O encanto inicial com o trabalho de Filipe Luís já se dissipou. Parte da torcida começa a elegê-lo como vilão — algo que, na Gávea, costuma acontecer com uma velocidade impressionante. A exceção recente continua sendo Jorge Jesus, cujo período vitorioso virou régua permanente de comparação. A sombra de Jesus paira sobre qualquer treinador que pise no Flamengo. Agora, é Filipe Luís quem sente o peso desse fantasma.
Nem tudo é dinheiro
No fim das contas, o Flamengo que seu presidente imaginava estar num estágio superior volta a encarar a velha e conhecida realidade do futebol brasileiro. Um ambiente onde dinheiro ajuda, claro, mas não imuniza ninguém contra crises.
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O Flamengo descobre, talvez da forma mais incômoda possível, que também é refém do básico: resultados. Sem eles, até o elenco mais caro do país vira apenas mais um time pronto para acionar o botão da máquina de moer treinadores. Mesmo com mais dinheiro e mais craques que os outros, o Flamengo segue sendo o que todos os clubes brasileiros são no fundo: dependente de vitórias para sustentar qualquer narrativa de grandeza.





