Muita gente deve se perguntar porque dirigentes de clubes se empenham tanto pelos cargos se o ofício não é remunerado e exige dedicação voluntária quase integral. A resposta atravessa séculos da história e passa pela constatação de que a civilização humana, se não é movida por dinheiro, é levada invariavelmente por poder. Seja por um ou pelo outro, muitos personagens arriscam até sua biografia, seu moral e sua ética – ou a falta deles, em nome de projetos pessoais de força.
O futebol brasileiro talvez sirva de exemplo bem acabado para demonstrar na prática como essa dinâmica perversa se dá. E de como as pessoas ficam cegas pelo poder. Num recorte mais ajustado, o Corinthians é a mais bem acabada tradução de tudo isso. Historicamente, conselheiros, sócios e dirigentes de diferentes vertentes políticas sem engalfinham internamente em troca de prestígio, de projeção pessoal, de vaidade e, por que não, de salvo conduto para a prática de malfeitos que desaguam em deslizes éticos.

A guerra pelo poder no Parque São Jorge sempre foi a força motriz da política do clube. Desde os tempos de Vicente Matheus, no entanto, não se viu nada igual (e degradante) quanto o que o clube experimentou nos últimos dez anos. Nesse período o Corinthians se viu refém de uma batalha entre dois grupos rivais que mistura cenas de estelionato, corrupção, uso indevido de cartões corporativos, dívidas, escândalos administrativos, desordem financeira, deposição de presidentes eleitos e condutas que refletem negativamente na performance esportiva do time de futebol profissional.
Uma guerra de vaidades
Com um passivo de R$ 3 bilhões, o clube só não fechou ainda porque a marca Corinthians tem um peso único, capaz de sobreviver aos mais terríveis turbilhões. O capítulo da hora nessa novela vexatória para a história centenária do clube é a guerra declarada entre o presidente Osmar Stabile e o presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior. Os dois expõem suas diferenças publicamente, sem se dar conta de que a briga pessoal deles expõe as vísceras de uma instituição doente.
Stabile tentou o afastamento de Tuma numa manobra política escusa, sem nenhuma proteção legal do estatuto do clube. Mesmo acuado, Tuma deu de ombros para a votação que determinou seu afastamento do Conselho por não ver no processo qualquer embasamento jurídico. E avisou que só sai da cadeira por decisão judicial.
Sempre foram coniventes
Curioso é que nessas horas os dois lados apelam ao estatuto. Mas se esquecem de consentir que eles próprios, na condução de seus papéis estatutários, atropelam o texto frio da carta magna do clube. Não fosse assim, o Corinthians não estaria tão endividado, quase falido, subjugado pelos desmandos de quem deveria botar ordem na casa e zelar por ela. Não se trata, portanto, de um embate entre certo e errado. Trata-se de um conflito entre partes que, em maior ou menor medida, participaram — por ação ou omissão — da construção desse cenário.
Ao que parece, nunca se preocuparam em defender os reais interesses da coletividade, mais preocupados que estavam em lutar por seus projetos pessoais de poder. Hoje Stabile e Tuma boxeiam em praça pública vendendo a imagem de salvadores da pátria. Mas onde eles estavam, e o que estavam fazendo, nesse período em que o Corinthians era saqueado, a ponto de não ter dinheiro para pagar a conta da tia que fornecia marmitas para os funcionários do clube? O que ambos fizeram quando antigos dirigentes submetiam suas contas para o Conselho e elas eram aprovadas sem restrições, sem que ninguém percebesse, por exemplo, que o cartão corporativo da presidência bancava compras em joalherias, restaurantes de luxo e até a compra de remédios para impotência sexual?
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A julgar pela resposta que parece mais óbvia, Stabile é Tuma poderiam se dar as mãos e abdicar de seus cargos. A renúncia coletiva seria uma demonstração de grandeza, para que, enfim, o Sport Club Corinthians Paulista pudesse ser, moral e eticamente, refundado — para, quem sabe, renascer também politicamente como uma instituição saudável. Sem esse recomeço é difícil imaginar que, sob a condução dos atuais dirigentes, o Timão se reconstrua como a potência que sua história e sua nação exigem.





