Quando o garoto Lamine Yamal disse na coletiva pré-jogo que não tinha medo da França, ele sabia que aquilo significava muito mais do que mera provocação juvenil. Era a clara demonstração de confiança num modelo de jogo que faz da Espanha uma seleção quase imbatível. Aliás, a vitória por 2 a 0 sobre a França, na tarde desta terça-feira, no Dallas Stadium, em Arlington, no Texas, levou a Espanha a 37 partidas consecutivas sem derrota, igualando o recorde mundial da Itália entre seleções masculinas principais. A série começou depois do revés por 1 a 0 para a Colômbia, em 22 de março de 2024, e considera como empate a final da Liga das Nações de 2025, perdida nos pênaltis para Portugal.

Tudo sobre a Copa 2026

O triunfo espanhol vai muito além da classificação para a final da Copa do Mundo. Ele representa mais um capítulo da consolidação de uma identidade futebolística que atravessa gerações. O famoso tiki-taka, levado ao auge pela geração de Xavi, Iniesta, Busquets e Xabi Alonso, nunca foi apenas uma sequência interminável de passes. Sempre foi a marca registrada de uma escola de futebol construída sobre três pilares inegociáveis: posse de bola como instrumento de controle do jogo, circulação rápida por meio de passes curtos e intensa movimentação coletiva para criar espaços e sufocar o adversário.

Espanha Pedro Porro
Em jogada coletiva, Pedro Porro aparece livre na grande área, marca o segundo gol e define a vitória da Espanha / Fifa

Espanha e seus métodos

Foi essa filosofia que levou a Espanha ao período mais glorioso de sua história entre 2008 e 2012, quando conquistou duas Eurocopas e uma Copa do Mundo. Mais importante do que os títulos, porém, foi a criação de uma cultura de jogo capaz de sobreviver às mudanças naturais do futebol. As gerações passam, os jogadores se renovam, os técnicos mudam, mas a ideia central de um jogo controlado, sem oferecer espaços ao adversário e baseado na cadência dos passes curtos, segue viva como marca registrada de uma seleção que transforma a simplicidade em excelência. Um time que, se não arranca suspiros pelos virtuosismos individuais, merece aplausos por sua eficiência e pelo altíssimo grau de compromisso coletivo com a estratégia traçada pelo técnico Luis de la Fuente.

Ao mesmo tempo, seria injusto dizer que a Espanha permaneceu parada no tempo. A essência continua a mesma, mas o modelo evoluiu. O toque paciente ganhou profundidade e velocidade. A posse de bola deixou de ser um fim em si mesma para se transformar numa ferramenta para atacar com mais agressividade. A presença de pontas explosivos como Lamine Yamal e Nico Williams tornou a equipe muito mais vertical, imprevisível e letal do que aquela que, em alguns momentos, foi criticada por exagerar nos passes laterais.

O homem que iniciou essa revolução não está mais entre nós. Luis Aragonés, que assumiu a seleção em 2004 e lançou as bases desse novo futebol espanhol, morreu em 2014. Foi sob seu comando que nasceu a ideia que, anos depois, seria popularizada pelo narrador Andrés Montes com o nome de ‘tiki-taka’. Aragonés talvez nem reconhecesse alguns detalhes da versão atual, mas certamente sentiria orgulho ao ver que os princípios que implantou continuam guiando a Espanha vinte anos depois.

França leva terceiro baile

Não dá para negar que a França era a grande atração da Copa e apontada por nove entre dez analistas como a principal favorita ao título. Parecia que os deuses do futebol haviam decidido fazer uma revisão histórica e devolver aos franceses, quatro anos depois, o troféu perdido na dramática final do Catar para a Argentina. Era a Copa de Mbappé, Olise, Dembélé e de uma geração extraordinária pela combinação de talento, força física e velocidade. Para muita gente, a França só perderia este Mundial para ela mesma.

Mas a Espanha estava no caminho e manteve sua tradição recente de superioridade sobre o rival. Numa verdadeira aula de eficiência, técnica e padrão coletivo, venceu porque conseguiu neutralizar precisamente tudo aquilo que faz da França uma seleção tão perigosa. Em nenhum momento o time de Didier Deschamps encontrou os espaços de que tanto necessita para acelerar seus ataques.

O treinador francês tentou de tudo. Levou Dembélé para o centro, abriu Olise pela direita, utilizou Barcola mais adiantado e até reforçou a marcação sobre Lamine Yamal. Nada funcionou. A Espanha controlou completamente o território do jogo, impondo ritmo, ocupando os espaços e fazendo a França atuar exatamente onde não queria. Não houve nenhuma invenção tática revolucionária. Bastou à Espanha jogar como Espanha, fiel à própria identidade.

Ritmo controlado

Com o roteiro completamente sob controle, Rodri colocou a bola debaixo do braço e comandou uma atuação praticamente perfeita. Ao seu lado, Fabián Ruiz e Dani Olmo completaram o domínio absoluto do setor mais importante do campo. Também merecem destaque a partida impecável de Cucurella na contenção pelo lado esquerdo da defesa, a segurança de Unai Simón no gol e a eficiência de Oyarzabal, que mais uma vez confirmou sua vocação para aparecer nos grandes momentos, mesmo sem o brilho midiático das principais estrelas.

Espanha Lamine Yamal
Falastrão antes da partida, Lamine Yamal atormenta os franceses e sofre o pênalti que origina o primeiro gol / Sefutbol

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

Não foi por acaso que a torcida espanhola acabou o jogo como se estivesse em casa, numa festa tipicamente espanhola, numa arena de touradas, aos gritos de ‘olé’, à medida que o toureiro colocava o touro ferido sob seus pés, submisso e entregue a um domínio irrefutável.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui