O grito de ‘olé’ começou a descer das arquibancadas do Dallas Stadium antes mesmo de o relógio entrar nos acréscimos. A cada passe curto, a cada mudança de lado e a cada tentativa frustrada da França de recuperar a bola, os torcedores espanhóis transformavam a semifinal em celebração antecipada. Não era provocação vazia. Era a trilha sonora de uma aula de futebol. Com autoridade, controle e pouquíssimos sustos, a Espanha venceu por 2 a 0, classificou-se para a segunda final de Copa do Mundo de sua história e ampliou uma freguesia que começa a incomodar de verdade os franceses.
Em três temporadas consecutivas, por três competições diferentes, a França encontrou a Espanha em uma semifinal e terminou eliminada. Foi assim na Eurocopa de 2024, com vitória espanhola por 2 a 1. Repetiu-se na Liga das Nações de 2025, no espetacular 5 a 4 de Stuttgart. Agora, na Copa de 2026, o domínio foi ainda mais evidente. A seleção que chegou ao confronto com o ataque mais temido do torneio, liderado por Mbappé, Dembélé e Olise, passou boa parte da noite sem conseguir transformar talento em ameaça.

Espanha leve e solta
A Espanha não precisou correr riscos desnecessários para assumir o comando. Rodri organizou o ritmo, Fabián Ruiz ocupou os espaços, Dani Olmo circulou entre as linhas e Lamine Yamal atacou Lucas Digne com a confiança de quem sabia onde estava a fragilidade francesa. Aos 22 minutos, o garoto se antecipou ao lateral dentro da área e foi atingido quando Digne tentou afastar a bola. Mikel Oyarzabal cobrou o pênalti com segurança, marcou seu quinto gol no Mundial e abriu o caminho para a final.
A vantagem não mudou a postura espanhola. Em vez de recuar e entregar o campo para os franceses, a equipe de Luis de la Fuente continuou controlando a posse, fechando os corredores e obrigando o adversário a atacar sem clareza. A França, acostumada a acelerar os jogos com Mbappé e Dembélé, encontrou uma defesa bem posicionada, protegida por um meio-campo que raramente se desorganizava. Quando os Bleus tentavam aumentar a pressão, a Espanha escapava com passes curtos e movimentos coordenados.
O segundo gol, aos 13 minutos, resumiu a diferença entre as equipes. Pedro Porro avançou pela direita, tabelou com Dani Olmo e entrou na área como um atacante. O lateral finalizou com tranquilidade, no canto de Mike Maignan. Três minutos depois, Lamine Yamal ainda colocou a bola na rede em uma jogada individual de enorme categoria, mas o lance foi anulado por impedimento. O 3 a 0 não valeu; a sensação de superioridade, porém, já estava consolidada.
Fúria recordista
Deschamps tentou reagir com as entradas de Désiré Doué, Rayan Cherki e Theo Hernández. As mudanças aumentaram o número de jogadores ofensivos, mas não alteraram o roteiro. A França continuou espaçada, previsível e dependente de iniciativas individuais. Mbappé, que começou a partida após ser poupado em parte do último treino por causa de dores no tornozelo, foi neutralizado. Dembélé também apareceu pouco. Nos minutos finais, enquanto os franceses atacavam mais por obrigação do que por convicção, a Espanha trocava passes sob o coro de ‘olé’.
O triunfo também levou a geração de De la Fuente a um novo patamar estatístico. Considerando todas as partidas, a Espanha chegou a 37 jogos consecutivos sem derrota, com 28 vitórias e nove empates, igualando a marca estabelecida pela Itália entre 2018 e 2021. No recorte apenas dos compromissos oficiais, a sequência espanhola alcançou 38 partidas: 31 triunfos e sete igualdades. A derrota para Portugal nos pênaltis, na final da Liga das Nações de 2025, entra nas estatísticas como empate porque o jogo terminou 2 a 2 antes das cobranças.
Mais importante do que os números é a forma como essa seleção se tornou completa. A Espanha já não depende apenas da posse pela posse. Sabe pressionar, acelerar, defender mais baixo quando necessário e decidir partidas com diferentes protagonistas. Campeã da Eurocopa de 2024, finalista da Liga das Nações de 2025 e agora novamente na disputa de uma taça, a equipe mostra que sua força não está restrita a uma geração promissora. Ela já se transformou em realidade.

Últimos desafios
A final será disputada no domingo, em Nova York/Nova Jersey, contra o vencedor de Argentina e Inglaterra, que se enfrentam nesta quarta-feira, às 16h (horário de Brasília), em Atlanta. Para a França, resta a partida pelo terceiro lugar, no sábado, em Miami, diante do derrotado da outra semifinal. Será também a despedida de Didier Deschamps, que deixará o cargo depois de 14 anos.
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O técnico que levou os Bleus ao título de 2018 e ao vice de 2022 perdeu a chance de disputar uma terceira decisão mundialista consecutiva. Sua última imagem em uma semifinal de Copa foi a de um treinador sem respostas diante de um adversário superior. Do outro lado, a Espanha terminou a noite tocando a bola, ouvindo ‘olé1 e olhando para a taça.





