Se tudo correr bem, ou não houver mais nenhum imprevisto nessa etapa irregular de preparação da seleção brasileira na última data-Fifa antes da convocação final para a Copa, Carlo Ancelotti deve repetir a experiência de um time com apenas dois volantes e quatro atacantes — o que sugere um sistema baseado na formação clássica do futebol dos anos 70, início dos anos 80: o 4-2-4.
Seria maravilhoso — e até romântico — que a seleção pudesse voltar a jogar dessa forma, explorando toda sua vocação ofensiva que nos levou ao tricampeonato em 1970, no México, quando Zagallo teve de dar um jeito de acomodar vários craques no mesmo time, a ponto de montar uma linha ofensiva formada por nada mais nada menos do que cinco jogadores que atuavam com a camisa 10 em seus respectivos times: Jairzinho (Botafogo), Gérson (São Paulo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos) e Rivelino (Corinthians). O único meio-campista com características mais defensivas era o volante Clodoaldo, que, a bem da verdade, não parecia um brucutu e sabia jogar com a bola no pé.

Guardadas as devidas circunstâncias — e longe de incorrer na heresia de qualquer comparação com aquele elenco estrelado liderado por Pelé —, a proposta de Ancelotti merece aplausos por esse resgate histórico, mas requer cautela em qualquer análise que se faça. A demonstração de fragilidade do esquema contra a França soou como um alerta claro: o Brasil já não pode mais se aventurar a tratar o jogo como uma trocação aberta de golpes contra adversários mais fortes.
Há ainda um abismo
A julgar pelo abismo que separa a atual safra das gerações do passado, a opção por um sistema com esse desenho beira o risco calculado — ou, em um cenário mais extremo, um projeto suicida. Para o amistoso contra a Croácia, nesta terça-feira, nos Estados Unidos, Ancelotti deve seguir testando esse conceito de jogo franco. Por causa dos desfalques de dois jogadores que, em tese, terão lugar garantido nessa linha ofensiva no Mundial — Estevão e Raphinha, hoje fora por contusão —, o Brasil deve iniciar a partida com Matheus Cunha, Luiz Henrique, João Pedro e Vinícius Júnior. Vini foi poupado no sábado, mas treinou normalmente neste domingo e deve ser titular.
Danilo com Casemiro
No meio, a entrada de Danilo ao lado de Casemiro reforça ainda mais a ideia de um time dividido em dois blocos bem definidos — o que, na prática, pode significar um vazio perigoso entre defesa e ataque.
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E é justamente aí que mora a principal contradição dessa proposta. Curiosamente, essa forma de jogar não foi uma marca nem mesmo do Ancelotti de clubes. Nem no Real Madrid, onde tinha à disposição um elenco repleto de estrelas, o treinador abriu mão de estruturas mais equilibradas. Ao contrário: sua carreira sempre foi construída sobre a ideia de controle, ocupação racional de espaços e, sobretudo, equilíbrio entre os setores.
Riscos conhecidos
Mais do que isso, o 4-2-4 — romântico, mas perigoso — é quase a negação da formação de Ancelotti como jogador e treinador. Afinal, ele é produto direto da escola italiana, historicamente associada à disciplina tática e ao rigor defensivo. O Catenaccio (cadeado, em italiano) símbolo máximo dessa cultura, moldou gerações inteiras — e, em alguma medida, também o próprio Ancelotti.

Ao propor essa ruptura, o treinador parece viver uma espécie de revolução interna — talvez iludido pelo material humano que tem à disposição, talvez pela pressão histórica que envolve dirigir a seleção brasileira, talvez por uma tentativa consciente de se adaptar à identidade que o país cobra de sua equipe. É uma aposta. Pode dar certo.
Sustentação coletiva
Mas a tentativa frustrada contra a França mostrou que, no futebol de alto nível atual, talento ofensivo sem sustentação coletiva pode ser insuficiente — e até perigoso. Talvez Ancelotti se apoie em uma verdade antiga do jogo: não existem fórmulas definitivas. Não há sistemas certos ou errados por si só. O que existe é o contexto — e a capacidade de cada equipe de responder às exigências que ele impõe.
O sistema tático é apenas uma parte da equação. O plano de jogo, muitas vezes, extrapola a prancheta. Há variáveis que não se controlam, além do acaso. O futebol continua sendo, em essência, um jogo de imprevisibilidades, sem a lógica das ciências exatas. Diante disso, resta observar qual resposta o time de Ancelotti será capaz de dar depois das muitas interrogações deixadas no duelo com a França. Porque, entre o resgate de um passado glorioso e a ousadia que poderia nos levar ao hexa, há de se respeitar o que determinam os deuses do futebol.





