A ampliação da Copa do Mundo 2026 para 48 seleções se encaixa exatamente na síndrome do gigantismo – algo marcadamente presente na existência da Fifa, desde sua fundação. Oficialmente, na teoria, a ideia é vendida como um avanço civilizatório, um gesto de inclusão e democratização do esporte para todos.
Na prática, no entanto, ela expõe a prioridade da entidade em expandir seu domínio — e suas receitas —, mesmo que isso custe a essência do maior evento do futebol mundial.

A última data-Fifa antes da Copa em junho e julho fechou nesta terça-feira o quadro de países classificados. Entre eles, seleções como Curaçao, Panama, Haiti, Irã e Nova Zelândia, por exemplo. Todas com legitimidade esportiva dentro de seus contextos, mas que, reunidas no palco máximo, ajudam a ilustrar um problema inevitável: a Copa deixa de ser o torneio exclusivo aos melhores do mundo para se tornar o torneio de quase todos.
Começa a maratona
O novo formato — 48 seleções, 12 grupos e 104 jogos — não representa apenas um ajuste logístico. Ele altera a natureza da competição. A fase final, historicamente concebida como um recorte de excelência, corre o risco de se transformar em uma maratona longa e desigual, com confrontos de desnível técnico evidente. O futebol está coalhado de exemplos em que o gigantismo acaba cobrando um preço alto na medida em que se atropelam os interesses esportivos.
No Brasil ninguém em sã consciência pode sentir saudade de um campeonato nacional com 96 times, disputado numa época em que parecia claro o interesse político acima de tudo. Era o tempo em que o país caminhava dividido entre duas forças políticas, Arena (partido so governo) e MDB (oposição) e o esporte funcionava como linha auxiliar do poder. Na época em que o número de participantes só crescia, a história cunhou a célebre frase “onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional”.
Por qual motivo?
O discurso oficial, encampado por Gianni Infantino, insiste na ideia de uma Copa “mais inclusiva”. Mas inclusão nunca foi um problema a ser resolvido na fase final do torneio. Para isso existem as Eliminatórias, que já envolvem mais de duas centenas de seleções ao redor do mundo e cumprem, de fato, o papel de democratizar o acesso. A Copa, em sua essência, sempre foi outra coisa: o encontro da elite, o estágio máximo de competitividade, o lugar onde o futebol se apresentava em sua forma mais exigente. Ao romper esse equilíbrio, a Fifa não amplia o futebol — ela o banaliza.
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Não é difícil entender as razões. Mais seleções significam mais jogos; mais jogos significam mais receitas; mais receitas significam um produto ainda mais valioso para patrocinadores, emissoras e mercados globais. A edição de 2026, organizada por Estados Unidos, México e Canadá, nasce como a materialização perfeita dessa lógica: um evento maior, mais longo, mais rentável — e, potencialmente, menos relevante do ponto de vista técnico. Será que alguém ainda se importa com isso além dos românticos e saudosistas?
Os riscos estão na mesa
Mas o futebol não é uma equação puramente expansiva. Ele se sustenta em equilíbrio: entre quantidade e qualidade. A Copa do Mundo sempre foi especial justamente porque não cabia todo mundo. Porque cada vaga premiava um trabalho de excelência esportiva. Ao tentar transformar o torneio em algo mais amplo, a Fifa corre o risco de torná-lo menos significativo. O que está em jogo é exatamente aquilo que construiu o prestígio da Copa ao longo de décadas: sua capacidade de ser universal sem abrir mão da excelência.





