Magro, rosto alongado e queixo esticado. E um dos maiores goleadores do futebol brasileiro em todos os tempos. No auge de sua carreira, fazia dupla com Pelé. O centroavante Antônio Ferreira, o Toninho Guerreiro (1942-1990), marcou época no Santos e no São Paulo. Foi o primeiro jogador pentacampeão paulista numa época que o Estadual era a principal competição do calendário brasileiro.

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Jogador oportunista e valente que não tinha medo dos zagueiros brucutus. E havia muitos beques maldosos no seu tempo. Revelado pelo Noroeste, de Bauru, foi para o Santos, onde ficou por sete temporadas e ganhou muitos títulos. Teve a difícil tarefa de suceder o goleador Coutinho para integrar o melhor ataque do futebol brasileiro. Deu muito certo: Toninho Guerreiro tornou-se o quarto maior artilheiro do time da Vila em todos os tempos. Multicampeão, tornou-se referência no setor ofensivo do Santos de Pelé.

Multicampeão no Santos e São Paulo, Toninho Guerreiro ganha uma biografia assinada pelo jornalista Odir Cunha / Santos

Em outubro de 1970, Toninho transferiu-se para o São Paulo por 800 mil cruzados. Foi bicampeão paulista no Morumbi, encerrando um jejum que durava desde 1957. Atuou ao lado de Gérson e Pedro Rocha, num dos maiores times do clube de todos os tempos. Era um dos principais nomes para a Copa de 1970 disputada no México, onde o Brasil foi tri, mas acabou preterido pelo técnico Zagallo, que convocou Dadá Maravilha, do Atlético-MG. Uma história controversa até os dias atuais porque envolveu o governo militar do país.

Artilheiro ganha biografia

A trajetória deste goleador está contada em todos os detalhes no livro O céu e o inferno de Toninho Guerreiro, escrito pelo jornalista Odir Cunha e que será lançado pela editora Letra Livre em maio. O autor levou 18 meses elaborando a obra e pesquisando uma ampla bibliografia. Ele entrevistou diversos contemporâneos do atacante no Santos e no São Paulo. A obra observa a carreira do atleta desde o início no interior paulista, passando pelo auge e os últimos momentos, já distante do futebol.

Capa do livro “O Céu e Inferno de Toninho Guerreiro”, biografia que será lançada em maio / Divulgação

Autor de alguns livros sobre futebol, o biógrafo revela que a maioria dos torcedores do Santos só deu valor ao artilheiro quando ele deixou a Vila Belmiro e foi negociado com um rival da capital. “Quando ele saiu, o clube ficou anos sem ter outro artilheiro igual”, explica o autor.

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Para entender a trajetória do goleador e os principais episódios da sua vitoriosa carreira, The Football conversou com Odir Cunha, autor da biografia do primeiro pentacampeão paulista de todos os tempos.

The Football: Como surgiu a ideia de fazer um livro sobre o Toninho Guerreiro?

Odir Cunha: Eu já tinha escrito outros livros sobre o Santos (ao todo, fiz 14 livros com o Santos como tema principal) e as biografias de Pelé e Zito. Como achava que o Toninho pudesse interessar mais a amigos são-paulinos, sugeri a dois jornalistas que fizessem a biografia. Eles não se interessaram. Então, eu fiz. Já tinha pensado em escrever as biografias de Pagão e Coutinho. Mas a primeira foi prometida à família do jogador por um jornalista de Santos, e a segunda escrita por um jornalista da Band.

Quando adolescente, eu queria ser jogador de futebol e era um meia ofensivo que às vezes jogava como centroavante. Quem não gosta de fazer gols? Sonho com isso até hoje. Identifico-me com todo artilheiro, e Toninho foi um dos melhores. É um personagem muito rico, como o livro mostrará.

O Toninho Guerreiro sempre foi comparado com o Coutinho. Os dois foram parceiros do Pelé. Qual era a diferença deles? Quem era mais efetivo?

O Coutinho era a alma gêmea do Pelé. Os dois se entendiam até de olhos fechados. Por isso fizeram a tabelinha mais conhecida e respeitada do futebol. E Coutinho gostava mais de servir a bola para Pelé marcar do que ele próprio fazer o gol. Toninho, não. Tendo oportunidade, concluía a gol. Essa era a grande diferença. Em Santos, a imprensa idolatrava Coutinho e tinha ressalvas quanto a Toninho por não ter a mesma sutileza e por perder muitas oportunidades de gol. Mas perdia oportunidades porque se colocava bem e sempre estava pronto para mandar a bola para as redes. Só deram o real valor a Toninho quando ele saiu do Santos e o clube ficou anos sem ter outro artilheiro igual.


O Toninho era de uma época dos atacantes trombadores. Por que no futebol de hoje não existe mais esse tipo de centroavante?

Há controvérsias quanto à sua afirmação. Segundo o craque Pedro Rocha, que jogou com Toninho no São Paulo, ele era técnico, não trombador. Eu diria que para fazer o gol ele podia até trombar, se necessário, mas também era capaz de fazer gols de muita categoria, de chutes colocados, cabeceios, de calcanhar e até de bicicleta. Enfim, era o chamado homem-gol nato.

Agora, se hoje não existem tantos centroavantes trombadores, talvez seja porque esse estilo é muito arriscado e pode gerar contusões graves. Toninho não era de se machucar muito, mas no fim da carreira ele sofreu com lesões persistentes.

Toninho Guerreiro jogou no Santos entre 1963 e 1969, sendo um dos maiores artilheiros do clube / Santos

O Toninho foi muito vitorioso no Santos e se transferiu para o São Paulo, que não vencia um título fazia anos. Foi algo polêmico na época. O livro aborda isso?

Sim, o livro O céu e o inferno de Toninho Guerreiro aborda todas essas fases da vida e carreira de Toninho com muitos detalhes. Modéstia à parte, a pesquisa é muito boa. Toninho foi para o Santos porque o clube precisava de dinheiro para pagar as dívidas pela compra do Parque Balneário (não conseguiu pagar e perdeu o imóvel, que foi devolvido à família Fracarolli). E também porque Toninho tinha levado um desfalque de amigos e necessitava pagar dívidas que ficaram para ele, como fiador desses amigos.

Para os mais próximos ele dizia que o Santos era o melhor time do mundo e ele nunca teria saído de lá não fosse a necessidade financeira. Mas também afirmou, em entrevistas, que no São Paulo ele era “mais ele”, ou seja, se sentia livre da sombra de Pelé e podia jogar mais solto.

O fato dele ter sido o primeiro jogador pentacampeão paulista é um diferencial dele?

Sim, claro. Mas ele teve outros. Foi três vezes artilheiro do Campeonato Paulista, do Campeonato Brasileiro da época e da Copa Libertadores. E ficou marcado por ter sido cortado da seleção brasileira que ia embarcar para a Copa do México devido a uma sinusite que nunca o atrapalhou. Explico bem essa história no livro. Essa, aliás, foi a maior mágoa de Toninho no futebol. Algumas pessoas que ouvi disseram que, se ele fosse para o México, ele arrebentaria naquela Copa.


Muito se fala que o Toninho poderia ter sido convocado para a Copa de 1970, mas o Zagallo preferiu o Dadá Maravilha.

O nome do Dadá Maravilha foi falado pelo presidente da República na época, o general Emílio Garrastazu Médici. O general queria o Dario na seleção. Toninho foi cortado pelo médico Lídio Toledo, que considerava sua sinusite um empecilho para ele jogar na altitude da Cidade do México. Não se levou em conta que ele já tinha jogado, pelo Santos, em cidades altas como México, La Paz, Bogotá, e nunca teve problemas. Enfim, com a substituição de (João) Saldanha, Zagallo entrou e, além de Dario, convocou Roberto Miranda, centroavante do seu Botafogo. Assim o maior artilheiro do Brasil naquele momento ficou fora da Copa, em um episódio que o magoou bastante.

Como o senhor vê o atual momento do Santos? Acredita que a SAF pode ser um bom caminho para o clube?

Sim, uma SAF bem administrada, honesta, competente, que aperfeiçoe o trabalho de revelar jovens talentosos e analise cientificamente o melhor lugar para o estádio do Santos. Se for a cidade de Santos, ótimo. As pesquisas, porém, dizem que em São Paulo o estádio teria maior público, o clube ganharia mais sócios e para o marketing seria bem melhor. Adoro a cidade de Santos, mas provavelmente para o crescimento do time o melhor é ter o estádio em São Paulo.

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