A Copa do Mundo de 1938 não foi apenas um torneio de futebol, foi um suspiro de humanidade. Realizada em uma França que já sentia o “cheiro” da Segunda Guerra Mundial nas suas fronteiras, a terceira edição da competição da Fifa era uma espécie de palco onde a geopolítica e o talento esportivo se enfrentavam em um duelo desigual. Enquanto as botas militares alemãs marcharam pela Europa, Leônidas da Silva e suas chuteiras davam a primeira prova de que o mundo, antes de mergulhar nas trevas, testemunharia uma nova forma de jogar futebol: à brasileira.
Foi lá que o Brasil deixou de ser apenas um participante quase que genérico para se tornar uma potência estética e de eficiência. Leônidas, o “Diamante Negro”, foi o maestro de uma orquestra que desafiava a rigidez europeia. Na épica vitória de 6 a 5 sobre a Polônia, disputada sob um dilúvio que transformou Estrasburgo em um pântano, ele transcendeu a lógica. Marcou três gols – um deles descalço, após sua chuteira se perder na lama –, provando que a essência daquele futebol vinha da alma e não do equipamento.

Hoje em dia, provavelmente esse gol seria anulado, mas lá em 1938, no contexto que se apresentava, representou a ousadia e também a genialidade de um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, e que viria a ser o artilheiro e consagrado como o dono do melhor futebol daquela edição.
Batalha de Bordeaux
No segundo jogo, o Brasil empatou com a Tchecoslováquia na partida que entrou para a história como a “Batalha de Bordeaux” por causa do excesso de violência em campo. Para se ter uma ideia, três das quatro expulsões dessa edição da Copa aconteceram ali. O número de cartões vermelhos só foi menor do que o de jogadores lesionados: cinco saíram de campo machucados. O goleiro da Tchecoslováquia, Planicka, por exemplo, quebrou o braço e a clavícula, enquanto o atacante Oldrich Nejedly fraturou uma perna. O jogo acabou em 1 a 1 e, por isso, houve uma partida de desempate em que o Brasil levou a melhor, 2 a 1. Era a senha para avançar para a semifinal.

Sem Leônidas, sem vaga
Foi aí que a história tomou um rumo trágico e irônico. O técnico Ademar Pimenta, por um excesso de confiança ou erro de cálculo médico, poupou Leônidas justamente contra a Itália. A alegação foi de que o jogador estava contundido, ainda reflexo do jogo com a Tchecoslováquia. Houve quem dissesse que o Diamante Negro teria condições de atuar. O fato foi que ele não entrou em campo e, sem sua joia, o Brasil caiu por 2 a 1 diante dos italianos, em um duelo marcado por um pênalti polêmico sofrido por Piola. Restou o terceiro lugar, conquistado contra a Suécia com um belo 4 a 2.
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A campeã e o time ‘fantasma’
Do outro lado da narrativa daquela partida contra o Brasil, a Itália, de Giuseppe Meazza – que depois viria a dar nome ao estádio em Milão –, representava o pragmatismo e a força de um regime que não aceitava a derrota. Sob a ordem de “vencer ou morrer”, os italianos desfilaram uma disciplina tática impecável na Copa. Meazza, o gênio da Internazionale, conduziu a Azzurra ao bicampeonato em uma final tensa contra a Hungria, que marcou 4 a 2 ao apito final. Mas a Copa do Mundo de 1938 também foi a Copa de uma ausência inacreditável.

A Áustria havia sido apagada do mapa político meses antes e anexada pela Alemanha nazista. Como resultado, Adolf Hitler proibiu a participação austríaca como nação independente e os seus jogadores foram forçados a integrar o time alemão – eliminado na primeira fase pela Suíça. Com a ausência, a edição de 1938 registrou 15 seleções e também o primeiro e único caso de W.O. da história das Copas. A seleção sueca, adversária austríaca na partida marcada para 5 de junho, em Lyon, avançou automaticamente à fase seguinte sem jogar.
O vazio de 12 anos
Quando o capitão italiano Meazza ergueu a taça em Paris, poucos imaginavam que aquele seria o último ato do futebol global por mais de uma década. A Copa do Mundo de 1938 encerrou um ciclo de inocência no planeta. Pelos doze anos seguintes, os estádios seriam usados para fins muito menos nobres do que uma partida de futebol. A Segunda Grande Guerra deixou marcas jamais esquecidas.
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O legado daquela Copa do Mundo, porém, ficou e sobreviveu aos bombardeios de Hitler. Se a Europa se fechava em trincheiras com o avanço da Segunda Guerra, o Brasil se abria para o mundo como o futuro dono da bola. A Copa de 1938 foi, em última análise, a certidão de nascimento da mística que nos acompanha até hoje: de que o futebol, em sua forma mais pura, é uma arte capaz de paralisar o tempo, mesmo quando o planeta tenta acelerar rumo ao abismo.





