No auge do regime fascista, a Itália do ditador Benito Mussolini (1883-1945) foi palco do primeiro Mundial disputado na Europa. Também foi a primeira Copa do Mundo com Eliminatórias. A curiosidade é que até mesmo o país-sede disputou as seletivas. Os italianos massacraram a Grécia por 4 a 0 para se classificar na competição recém-nascida que estavam organizando. Já o Brasil não teve de passar pelas preliminares. O Peru, a quem teria de enfrentar para carimbar o passaporte, desistiu de competir e a seleção brasileira se classificou de maneira automática.
Ao todo, 32 seleções se inscreveram para participar da competição da Fifa. Mas somente 16 foram credenciadas. Os uruguaios, campeões na edição anterior, se recusaram a jogar. A federação uruguaia resolveu boicotar a Copa do Mundo, já que a maioria das seleções europeias se negou a participar do Mundial anterior de 1930, quando o país sul-americano era sede. Foi uma espécie de troco pelo desdém. Com a decisão, o Uruguai se tornou a primeira e única seleção campeã do mundo a não jogar a edição seguinte para defender a sua conquista.

A Itália investiu para fazer um evento grandioso. O governo fascista de Mussolini gastou 3,5 milhões de liras para descentralizar o torneio e levá-lo para oito cidades-sede no país: Roma, Milão, Turim, Florença, Nápoles, Gênova, Bolonha e Trieste. Mussolini financiou a construção de dois novos estádios e realizou a reforma completa de outros cinco. A fórmula da disputa mudou em comparação à edição anterior, a primeira organizada pela Fifa. Ficou estabelecido que seria um torneio eliminatório direto. Quem perdesse era automaticamente eliminado.
Desclassificação relâmpago
Duas entidades controlavam o futebol brasileiro na década de 1930: a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e a FBF (Federação Brasileira de Futebol). A primeira era amadora e a segunda, profissional. As duas entraram em atrito para a organização do time que iria para o Mundial. Os amadores acabaram se reforçando com alguns profissionais e ganharam a parada. Contudo, o resultado em campo foi desastroso: o Brasil perdeu para a Espanha na sua estreia por 3 a 1. A partida foi disputada no Estádio Luigi Ferraris, em Gênova. O gol brasileiro foi marcado por Leônidas da Silva, de pênalti. O atacante carioca ganharia notoriedade na Copa seguinte. Mas o Brasil foi eliminado.

“O II campeonato mundial de futebol acabou hontem, para o Brasil. O nosso quadro não passou da primeira rodada do turno inicial, cahindo frente ao seu adversário inicial. Assim succedeu também em 1930 em que fomos desilludidos pela derrota da jornada inaugural”, concluiu o jornal A Gazeta, de São Paulo, em 28 de maio de 1934. O texto acima foi mantido na forma exata como ele foi escrito na época.
No único jogo brasileiro na Copa do Mundo de 1934, aconteceu a estreia do atacante Valdemar de Brito. Ele não ficaria muito famoso pelos seus feitos dentro dos gramados. O ex-atleta entrou para história 21 anos mais tarde, quando levou para o Santos Futebol Clube um garoto que, segundo ele, tinha muito jeito para o futebol: um tal de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O goleiro titular da seleção brasileira em 1934 também ficou conhecido tempos depois. Era Roberto Gomes Pedrosa, posteriormente árbitro e presidente da Federação Paulista de Futebol. Ele deu nome ao campeonato nacional entre as décadas de 1950 e 1960.
Excursão
Após a eliminação na Copa do Mundo da Itália, a seleção brasileira aproveitou para fazer dois jogos na Europa. Contra a Iugoslávia, em Belgrado, o Brasil perdeu por 8 a 4. Já diante do time do Gradjaanski, em Zagreb, o selecionado nacional não conseguiu sair do empate de 0 a 0, o que foi considerado bom resultado. O Brasil terminou a Copa de 1934 na modesta 14ª colocação entre os dezesseis participantes.
Predomínio da Azzurra
O Partido Nacionalista Fascista usou a competição de futebol da Fifa como meio de propaganda. Para ter um time forte, a Itália varreu o mundo à caça de filhos de imigrantes que soubessem jogar futebol. Os chamados “oriundi” reforçaram a seleção dona da casa. Só de “argentinos” foram quatro: Monti, Guaita, Orsi e De María. O ponta-direita paulista Filó também atuou pela Squadra Azzurra e foi o primeiro brasileiro campeão mundial.

O primeiro jogo da Itália foi fácil: 7 a 1 contra os Estados Unidos. Nas quartas de final, contra a Espanha, foram necessários dois jogos para determinar o classificado. No fim, Meazza fez o gol da vitória. Já contra o bom time da Áustria, uma vitória suada: 1 a 0. Na grande final, empate de 1 a 1 contra a Tchecoslováquia. Na prorrogação, Schiavio definiu a vitória dos donos da casa. A conquista foi muito comemorada no Estádio do Partido Nacional Fascista, em Roma. A Itália era campeã do mundo.
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O grande nome da conquista italiana foi o atacante Giuseppe Meazza, que atuava na Ambriosiana, antigo nome da Inter de Milão. Aos 23 anos, ele era o armador da equipe do técnico Vittorio Pozzo e deu o passe do gol na decisão. O jogador recebeu o apelido de “Il Balilla”, termo exatamente igual ao nome dado às organizações da juventude militar da ditadura fascista naquela época.





