O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, escancarou nesta quinta-feira uma guerra que o futebol brasileiro tenta esconder há anos nos bastidores: a disputa por dinheiro, poder e controle da futura liga nacional. E fez isso sem rodeios. Durante participação no São Paulo Innovation Week, o dirigente afirmou que a Libra vai renegociar todos os contratos com a Globo e ainda defendeu participação direta da CBF na criação da liga unificada, como já se desenha apos três anos de tentativas.
A fala de Bap ajuda a entender por que o futebol brasileiro segue travado quando o assunto é organização coletiva. O problema nunca foi apenas estrutural. É político, econômico e profundamente ligado à disputa de interesses entre os clubes mais ricos do país. O Flamengo entende que movimenta mais audiência, gera mais engajamento e, por isso, merece receber mais dinheiro do que os rivais. E não esconde mais isso. É assim que o seu presidente pensa.

Ao dizer que os contratos atuais “reviram seu estômago”, Bap praticamente confirmou que a próxima batalha será contra o modelo de divisão das receitas de televisão. O dirigente questiona, por exemplo, cláusulas que fazem clubes perderem receita em caso de rebaixamento sem compensações equivalentes. Para o dirigente, os acordos assinados pela Libra com a Globo precisam ser revistos integralmente.
Fla virou potência continental
O discurso de Bap deixa claro que o Flamengo trabalha numa lógica diferente da maioria dos clubes brasileiros. O Fla age como potência continental e negocia como um gigante de mercado. O faturamento de R$ 2,1 bilhões alcançado em 2025 fortalece ainda mais essa posição. O Flamengo entende que já ultrapassou a barreira do futebol brasileiro tradicional e tenta se posicionar como protagonista de uma indústria global.
É aí que nasce o atrito com rivais como o Palmeiras. A presidente Leila Pereira defende um modelo mais equilibrado de distribuição financeira e acredita que um campeonato forte depende de times competitivos economicamente. O Flamengo trabalha para maximizar suas próprias receitas dentro das brechas contratuais existentes.
R$ 150 milhões extras
Bap deixou isso evidente ao citar o acordo que garantiu ao clube cerca de R$ 150 milhões extras nos direitos de transmissão após disputa judicial dentro da Libra. O dirigente voltou a defender que o Fla foi prejudicado inicialmente pelo modelo aprovado e justificou a correção usando dados de audiência e participação no pay-per-view.

A discussão proposta por Bap, porém, vai além da negociação com a Globo. Ela escancara o fracasso dos clubes brasileiros em construir uma liga independente e sólida. Enquanto a Liga do Futebol Brasileiro e a LFU seguem divididas, a CBF percebe espaço para retomar protagonismo político e comercial sobre o futebol nacional. Bap, inclusive, não vê problema nisso. Pelo contrário. Considera a entidade uma parceira importante para organizar e vender melhor o campeonato. O presidente do Flamengo disse até que não haverá liga sem a participação da CBF.
O que disse Bap sobre Leila
“Não tenho problema com a Leila. É impossível pensar na criação de uma liga sem o Flamengo ou o Palmeiras. Fora de campo, os clubes deveriam ser amigos. Mas alguém achar que vai fazer birra e por qualquer razão eu vou tratar de maneira diferente, boa sorte… Os clubes permanecem, os dirigentes são perenes”, disse Bap sobre a presidente do Palmeiras.
Futebol rico e clubes pobres
O futebol brasileiro vive hoje um cenário contraditório. Nunca movimentou tanto dinheiro, nunca teve clubes arrecadando cifras tão altas e nunca esteve tão distante de uma solução coletiva. Todos falam em transformar o Brasileirão numa das maiores ligas do planeta. Mas poucos parecem realmente dispostos a abrir mão de vantagens individuais para construir algo maior. O discurso de Bap apenas tornou pública uma disputa que já vinha acontecendo silenciosamente nos bastidores. E ela só está começando. “Se a gente for mensurar a paixão do brasileiro e o que o futebol nacional movimenta, deveríamos nos preocupar em ser uma das três maiores ligas do mundo.”





