Borges era um homem de hábitos arraigados. Nos anos 60, sempre ao entardecer, deixava a Biblioteca Nacional da Argentina, onde ocupava o cargo de diretor, e passava numa livraria especializada em obras alemãs e anglo-saxônicas. Ali desenvolveu simpatia por um atencioso atendente, então com 16 anos.

TUDO SOBRE A COPA 2026

Já metido na escuridão da cegueira, Borges precisava de quem lesse para ele, visto que sua mãe, nonagenária, se cansava facilmente. Não tardou para que o escritor convidasse o guri para ser um desses beneméritos leitores. Entre 1964 e 1968, fez aparições noturnas no número 994 da Calle Maipú, em Buenos Aires, onde Borges o recebia com o indefectível terno cinza, a gravata amarela e uma ideia na cabeça. Que tal lermos Kipling essa noite?

O menino da livraria atende pelo nome de Alberto Manguel e hoje, beirando os 80, é um dos bibliófilos mais apaixonados do mundo. Seus livros são reiteradas declarações de amor à literatura. Li recentemente “Com Borges”, numa linda edição da Âyiné, cuja capa é de uma delicadeza tão elegante que a deixei meio ladeada, enfeitando minha estante. Nesse ensaio breve, para ser saboreado numa tarde, ressurgem as memórias do encontro desses dois grandes leitores, habitantes de um mundo essencialmente verbal.

AS SABEDORIAS QUE SE PERDEM NA MORTE

Manguel faz um retrato das preferências e manias daquele para quem ler era uma atividade muito mais civilizada do que escrever. Começa ainda uma anatomia da erudição de Borges, que desmontava “parágrafos com a intensidade amorosa de um relojoeiro.” Com o assombro reverente por estar diante de Borges na juventude, Manguel se emocionava com a essência humanista do argentino, que dizia: “Eu me comovo com as pequenas sabedorias que são perdidas a cada morte”.

Bem, embora os parágrafos acima sejam uma evidência em contrário, não faço aqui uma resenha literária, até porque nosso objeto aqui é futebol. O que me traz a essas linhas é uma frase do Manguel, dita como prevenção diante de eventuais imprecisões dos relatos do livro. As memórias daquelas noites ao fim dos anos 60 foram vertidas apenas em 2004, sem amparo de qualquer registro documental. Manguel se sabia imerso numa experiência histórica, mas não moveu um lápis sequer. E disse por que: Eu não anotava nada porque estava muito feliz.

UMA INGENUIDADE QUE ME SERVE

Sei que soa ingênuo, mas talvez seja isso que ainda procuro na Copa do Mundo. Não vitórias, nem patriotismos de ocasião. Apenas aqueles raros instantes em que deixamos de registrar a experiência para habitá-la com o que há de mais sincero em nós. Em tempos de capturas do descartável, ainda me comove a possibilidade de que milhões de pessoas parem por alguns segundos diante da mesma coisa. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo. A vida verdadeira é feita dessa coisa que não se deixa capturar, a não ser pela alma.

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