Sombreros ao ar, mariachis espalhados pelos corredores, a presença luminosa de Salma Hayek nas tribunas, o eterno Guillermo Ochoa no elenco para disputar sua sexta Copa do Mundo, a tradicional ‘ola’ percorrendo as arquibancadas, um mar de camisas verdes e bandeiras tricolores… Tudo isso embalado por um coral de mais de 80 mil vozes cantando Cielito Lindo, canção que os brasileiros aprenderam a reconhecer na adaptação popular que dizia: ‘Ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora, o dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora’, não deixa dúvidas: a Copa do Mundo, enfim, começou!
A abertura do 23º Mundial de seleções teve todos os sabores, sons, símbolos e cores da cultura mexicana. Uma celebração exuberante emoldurada por um estádio que parece ter sido construído para conviver com a história. O lendário Azteca abriu suas portas para receber, pela terceira vez, uma abertura de Copa do Mundo, feito inédito que reforça seu lugar entre os grandes templos do futebol.

Nostalgia brasileira
Para os brasileiros, a tarde também carregava um peso afetivo especial. Foi naquele mesmo gramado que a seleção de Pelé conquistou o tricampeonato mundial ao derrotar a Itália por 4 a 1 na final de 1970. Como se o roteiro já não estivesse suficientemente carregado de simbolismo, a partida ainda reservou outro marco histórico: pela primeira vez em 23 edições, o trio de arbitragem de um jogo inaugural era inteiramente brasileiro, com Wilton Pereira Sampaio no apito e Bruno Pires e Bruno Boschilia nas bandeiras. Uma arbitragem segura, pragmática, com três cartões vermelhos, apenas uma intervenção do VAR e poucas reclamações de ambos os lados.
E havia ainda uma curiosa volta do destino. Em 2010, na África do Sul, foram os mexicanos que participaram da abertura diante dos anfitriões. Dezesseis anos depois, os papéis se inverteram. Agora era o México quem recebia os sul-africanos para dar o pontapé inicial em mais uma Copa.
México arranca com tudo
Empurrado por uma torcida apaixonada e pela atmosfera quase hipnótica do Azteca lotado, o time mexicano entrou em campo disposto a transformar a festa em vitória. A África do Sul apostava numa formação cautelosa, com três zagueiros e linhas baixas, claramente preparada para sobreviver à pressão inicial. O plano, porém, desmoronou cedo demais. Aos oito minutos, saiu o primeiro gol da Copa do Mundo de 2026. Sithole errou na saída de bola, Lira roubou a posse com agressividade e acionou Julián Quiñones. O colombiano naturalizado mexicano não hesitou. Chutou rasteiro, seco, por entre as pernas do goleiro, e escreveu seu nome na história ao marcar o primeiro gol deste Mundial.
O México continuou dominando as ações. Teve mais posse, ocupou o campo ofensivo e empilhou oportunidades. Quiñones ainda acertou a trave antes do intervalo, enquanto Brian Gutiérrez desperdiçou uma chance clara para ampliar. A África do Sul praticamente não conseguia reagir. Sua primeira finalização só apareceu aos 37 minutos, retrato fiel das dificuldades encontradas diante da pressão mexicana.
Se ainda havia alguma esperança de reação africana, ela ficou muito menor com a expulsão de Sithole no início do segundo tempo e desapareceu de vez com o vermelho a Zwane, já na reta final. Com superioridade técnica e numérica, os donos da casa passaram a controlar completamente o jogo. O golpe definitivo veio na etapa final. Aos 35 anos, em sua quarta Copa do Mundo e, enfim, seu primeiro gol. Raúl Jiménez apareceu no segundo pau para completar de cabeça um cruzamento perfeito de Alvarado pela direita. Um gol para espantar a tensão da estreia e garantir a vitória.

Críticas ferozes
O placar poderia ter sido muito mais elástico. Só não foi porque o goleiro sul-africano acumulou boas intervenções e evitou uma goleada que parecia desenhada desde os primeiros minutos. Mas a Copa que começou em festa também começou cercada de realidade. A solenidade da cerimônia de abertura, os shows, os fogos e a atmosfera de celebração não conseguiram apagar as imagens que vinham das ruas da Cidade do México.
A menos de um quilômetro da entrada principal do Azteca, manifestantes que denunciam o desaparecimento de milhares de pessoas vítimas da violência dos cartéis e da incapacidade do Estado de oferecer respostas promoveram uma passeata que terminou em confronto com a polícia. Era impossível ignorar o contraste. Dentro do estádio, o futebol exibia sua capacidade extraordinária de unir pessoas, produzir alegria e alimentar sonhos. Do lado de fora, cidadãos utilizavam justamente os holofotes da Copa para lembrar ao mundo que existem feridas abertas que não podem ser escondidas por noventa minutos de entretenimento.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
O México venceu a África do Sul, marcou os dois primeiros gols da Copa e entregou ao planeta uma abertura praticamente perfeita. Mas os protestos serviram como um lembrete necessário de que o futebol, por maior que seja sua força simbólica, não pode se colocar acima dos problemas reais enfrentados pela população.





