Diz uma velha máxima do futebol que árbitro bom é aquele que passa despercebido. Mas como aceitar a imposição desse mandamento se o destino o escolheu para apitar o jogo de abertura de uma Copa do Mundo, num dos templos do futebol planetário? O brasileiro Wilton Pereira Sampaio até fez força para ser discreto, mas, no final, deixou sua assinatura de árbitro rigoroso, com três cartões vermelhos num jogo de apenas 23 faltas.
O saldo geral, porém, foi positivo. Sob o crivo de milhares de torcedores no estádio e bilhões de pessoas ligadas na transmissão ao vivo, Wilton Pereira Sampaio não interferiu diretamente no resultado — o que já é um avanço para um árbitro que frequentemente está no meio de grandes polêmicas nos jogos entre equipes brasileiras.

Wilton Pereira Sampaio se eterniza
México 2 x 0 África do Sul será para sempre um marco na carreira de Wilton. A escalação já era histórica por si só. Pela primeira vez em quase um século de Copa do Mundo, um árbitro brasileiro recebeu a missão de conduzir a partida inaugural do torneio. E Wilton não desperdiçou a oportunidade de mostrar por que continua entre os nomes de confiança da arbitragem da FIFA.
Seu estilo foi muito semelhante ao que o torcedor brasileiro está acostumado a assistir nos campeonatos nacionais. Ele esteve sempre próximo das jogadas, acompanhou os lances com boa movimentação e não hesitou quando entendeu que a punição disciplinar era necessária. Foram 23 faltas marcadas e três cartões vermelhos distribuídos ao longo da partida, em decisões tomadas com rapidez e personalidade.
Logo no início do segundo tempo, veio um dos momentos mais importantes da partida. Brian Gutiérrez arrancou em direção à área e foi derrubado por Sithole na entrada da meia-lua. Bem posicionado, Wilton interpretou corretamente o lance como interrupção de uma clara oportunidade de gol e expulsou o volante sul-africano sem precisar de auxílio tecnológico. Foi uma decisão difícil, tomada em tempo real e acertada pela leitura do contexto da jogada.
Olhar cirúrgico
Outro mérito da arbitragem brasileira apareceu num lance ajustadíssimo de impedimento. O sistema semiautomático não detectou infração, e o assistente Bruno Pires confirmou corretamente a posição legal do atacante mexicano, validando a continuidade da jogada sem gerar qualquer controvérsia.
A atuação do trio brasileiro também foi beneficiada por um aspecto que chama atenção em toda Copa do Mundo. Diferentemente do que ocorre rotineiramente nos gramados brasileiros, a autoridade do árbitro raramente foi contestada. Não houve cercos, pressões coletivas ou reclamações exageradas a cada decisão. Aquela cultura tão presente no futebol nacional, em que jogadores transformam até uma marcação de lateral em debate interminável, simplesmente não apareceu no Azteca. O ambiente permitiu que Wilton Pereira Sampaio conduzisse a partida com serenidade e sem interferências desnecessárias.
A única vez em que precisou recorrer ao VAR aconteceu aos 38 minutos do segundo tempo. Inicialmente sem visão da agressão cometida por Zwane, o árbitro foi chamado à cabine para revisão. Após analisar as imagens, confirmou o cartão vermelho. A decisão foi correta e reforçou a eficiência do protocolo. O único detalhe curioso ficou por conta do anúncio ao público. Ao comunicar sua decisão em inglês, Wilton demonstrou alguma dificuldade para encontrar as palavras e chegou a titubear ao identificar o jogador expulso. Nada que comprometesse a condução do jogo, mas um episódio que não passou despercebido.

Terceiro cartão vermelho
Se houve um lance capaz de gerar debate, ele apareceu já nos acréscimos. Aos 46 minutos do segundo tempo, César Montes recebeu cartão vermelho ao derrubar um atacante sul-africano que avançava em direção ao gol. Wilton entendeu que havia clara oportunidade de finalização e aplicou a expulsão. A decisão encontra respaldo na regra, mas também abre espaço para interpretação. Dependendo da leitura sobre a posição da bola, a distância para o gol e a possibilidade de recuperação da defesa mexicana, o árbitro poderia ter optado pelo cartão amarelo. Foi justamente essa decisão que provocou algumas vaias vindas das arquibancadas mexicanas.
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Ainda assim, o balanço final é amplamente positivo. Em uma partida cercada de simbolismo, pressão e enorme exposição internacional, Wilton Pereira Sampaio mostrou segurança, preparo e personalidade. Precisou do VAR apenas uma vez, acertou decisões importantes em campo e transmitiu autoridade do primeiro ao último minuto.





